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O medo

escrito por: Joana von Bonhorst

13/07/2021

Lembro-me bem da minha vida antes de ter tido um filho. Dos meus amigos, dos copos até às tantas, das mensagens a dizer que não ia dormir a casa, dos dates, das saídas à noite, das fofocas no dia seguinte.

Lembro-me bem de andar pelo mundo, pela cidade, sem horas e sem grandes preocupações. De conhecer pessoas. De ir ao ginásio e ter o corpo saudável, rijo e bonito. Lembro-me de arriscar. De bebedeiras e de experimentar drogas. De ressacas. Bastantes. Lembro-me que fumava. Talvez tenha corrido riscos, talvez tenha estado em perigo uma ou duas vezes.

Não me lembro de ter medo (salvo raras excepções). Era só eu.

Não que fosse uma boémia mas lembro-me que, curiosamente (como se fosse bruxa), aproveitei bem os meus últimos tempos de solteira – e sem ser mãe. Também me lembro das desilusões, do ego magoado, dos cacos emocionais, das dores de crescimento.

Lembro-me de ter conhecido o pai do meu filho e de ter começado tudo a acalmar. Uma espécie de detox do amor, com amor, sobre amor. De passar a viver numa bolha. Mas de ainda haver muitos amigos, copos, jantares, viagens. De haver muita natureza e passeios loucos quase maratonistas, em zonas inóspitas e sem rede. Inconsciências banhadas a sorte, talvez.

No outro dia, quando fui visitar os meus cunhados e a minha recém-chegada sobrinha, o meu cunhado disse-me «pá e eu que agora tenho medo de conduzir? Tenho medo. Medo que nunca tive!».

Lembrei-me que quando nasceu o meu filho não senti amor. Senti um despejar de responsabilidade e medo quando mo puseram no peito. Responsabilidade e medo!

Bem sei que o meu parto (e algumas outras coisas) contribuíram para o stress e o cortisol que foderam tudo e podem ter hiperbolizado a coisa mas com o meu filho nasceu o medo.

Foda-se, o medo de morrer. De lhe faltar. De eu não estar. De eu não lhe existir. De ele me perder. De chamar por mim e eu não o acudir. Da impotência. Da ausência. De eu desaparecer sem explicação. Viva, viro o mundo. «Das tripas coração»! Viva até pode doer mas não o largo. Enquanto existir. Que se foda a dor, o sítio, a doença. O medo é todo por ele.

É tudo valioso desde que ele existe. O mais valioso de tudo é o tempo que tenho com ele que, bolas, preciso que seja todo o que puder ser maior que o tempo que estará algum dia sem mim.

Tomamos consciência de todos os pequenos actos de risco e de perigo quando viramos pais, para protegê-los do que é menos bom mas sobretudo para que possamos perpetuar esta estadia aqui, nem que seja para assistir.

Quinta-feira serei vacinada contra um bicho que nos roubou tudo, que matou gente demais, que nos roubou despedidas, abraços e celebrações. Que nos encheu de medo e ameaçou tirar-nos tudo. O bicho que afastou famílias, higienizou comunidades e nos limitou a vida.

Tivemos todos muito medo este ano. Medo que acabasse. Que falhássemos porque percebemos que somos frágeis, que tudo é frágil. Medo do invisível, dos outros, da doença.

Hoje, estou cheia de medo mas quero cá estar. Por ele. Por toda a malta que conheço e da qual tenho saudades. Por todes. O medo é um reminder, um gatilho para lembrar que temos muito a perder e do que queremos assegurar.

Se fosse só eu, sozinha neste mundo doido, talvez cedesse a minha vez. Mas não sou. Ele existe e quero muito que isto acabe e que ele continue a ver o mundo sem medo, mesmo que eu trema por ele.

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