Skip to content

O meu parto

05/11/2021

O meu parto não foi violento, mas foi triste e rodeado de momentos de violência.

Num hospital público, na consulta das 40 semanas e perante uma gravidez saudável, marcaram-me indução para as 41 — “esteja cá de hoje a 8 às 8h com a mala da maternidade, fica internada, em principio é rápido, mas podem ser até 3 dias, mas é raro”. A médica disse-me que escusava de andar (estava a fazer 12km diários porque a minha obstetra basicamente só me mandava andar e andar) e fazer o que quer que fosse, nada iria resultar — “há pessoas que simplesmente não iniciam trabalho de parto e é assim”. Eu aparentemente, depois de uns 5min a olhar para mim, era uma dessas pessoas. Pedi para me falar sobre indução porque não sabia nada. Não me explicou. Pedi novamente. Não explicou. Fiquei destruída, sei que pode ser muita responsabilidade mas continuo a atribuir o desfecho da minha gravidez a esta médica (as pessoas às vezes minorizam o seu papel).
Escrevi à obstetra que escolhi para acompanhar a gravidez desde o início e respondeu me “não se pode falar de indução antes das 41” — no shit sherlock! — noutro email quando perguntei o que podia fazer disse-me “ande muito”, a totalidade de palavras calorosas que recebi quando pedi ajuda e aconselhamento (ainda para mais sabendo que estava a andar 12km por dia). Os emails seguintes (em que pedi uma consulta ou telefonema ou email — algo! — para me falar sobre indução e cesariana porque nunca tinhamos falado em consulta) simplesmente não tiveram resposta. Fui totalmente deixada ao abandono e ainda paguei por isso.

No hospital passei os dias 41 e 41+1 da gravidez a ser gozada.
41 semanas às 8h na consulta
– vinha fazer indução.
– indução? Não há nada marcado. Nem se marca indução para as 41. Está tudo bem, não há motivo e também não há camas mas convém não atrasar. Vá almoçar e volte depois do almoço pelas urgências, eu digo aos colegas.

41 semanas às 14h nas urgências
– vinha para indução, a dra disse que era para vir por aqui.
– não tenho aqui nada. Vamos ver. A ecografia está óptima, o líquido está óptimo, tensão está óptima. Não há camas mas tem 41 semanas, tem de vir amanhã às 8h, traga tudo.
– mas porquê se está tudo bem?
– segurança, nunca se sabe.

41+1 às 8h na consulta
– vinha fazer indução.
– indução? Não tem nada marcado. Nem se marca indução para as 41. Está tudo bem, não há motivo e também não há camas mas convém não atrasar. Vá almoçar e volte depois do almoço pelas urgências, eu digo aos colegas.

41+1 semanas às 14h nas urgências
– vinha para indução, a dra disse que era para vir por aqui
– não tenho aqui nada. Vamos ver.

Fiquei muito tempo à espera para ser atendida. O Vasco ficou lá dentro e eu fui lá para fora. Chovia muito e eu estava debaixo do chapéu de chuva a apanhar chuva e a chorar muito, a sentir-me sem forças e vontade, sentia os meus braços como se fosse um polvo moles e escorregadios, e a pensar que raio teria feito eu para merecer tanta violência tanta injustiça, tão pouco cuidado e calor humano, tão pouca consideração. Foi o único dia em que detestei estar grávida, detestei tudo e só queria desaparecer.
O Vasco apareceu viu-me provavelmente no meu pior e pegou em mim e fomos. Nunca mais voltei àquele hospital e até hoje desvio o caminho para não passar naquela rua.
Depois disto fui internada para indução noutro hospital às 41+2 e lá fiquei 4 dias sozinha a ver grávidas tomar um comprimido e parir umas horas depois, e eu a tomar misoprostol por todos os lados e nada. Foi triste mas fui acolhida, as enfermeiras eram profissionais e calorosas, sabiam que estavam a lidar com pessoas na sua maior fragilidade.

Depois veio um pós-parto misturado com pós-operatório (claro que todo este bolo de tristeza e angústia que andava a ser cozinhado desde as 40 semanas culminou numa cesariana, é aquela cena da lei de Murphy…) no dia de Natal, que é como quem diz com profissionais que preferiam estar a comer filhós. Foi o desamparo total — “a campainha é para emergências, não é para andar a tocar para pegar o bebé ao colo, isso tem de fazer sozinha! Não consegue pegar no seu filho?!” (mas também fui acusada de negligência quando o deitei comigo na cama) e eu destruída não só emocional como fisicamente, tipo como quem acaba de ser cortada ao meio e agrafada, e sem conseguir (mesmo!) pegar no meu filho tão pequeno e tão leve (realmente devia ser fácil!) — e vivi na pele o pesadelo por causa da amamentação. Ele tinha freio curto e tirava menos leite do que precisava, houve uma enfermeira que me disse “ah mas com esta língua tão curta ele nunca vai conseguir mamar!”, não falou em freio curto nem que se podia cortar e tudo ficaria resolvido — as minhas dores e a fome dele — , outra disse que com estes mamilos claro que ele nunca iria mamar, espremeram-lhe o pé para um teste de glicemia e perante o resultado disseram-me “acabou se esta brincadeira da amamentação, vai beber um biberon e dou eu”, pedi copo e respondeu-me que não tínhamos tempo para isso, cada momento era crítico e tinha de garantir que ele bebia o leite. Esta enfermeira que me acusou de negligência e egoísmo foi a mesma que me disse que se doía era porque estava a correr bem porque — ela não sabia porque não tinha tido filhos — mas pela sensação que lhe dava ali do internamento era que é normal doer (os anos luz a que estamos de atingir os mínimos olímpicos quando mulheres que verbalizam dor num hospital continuam a ser normalizadas). Pois doía muito e não, não estava a correr bem. Num outro turno a mesma enfermeira mandou o Vasco comprar mamilos de silicone, felizmente estavam esgotados e foi também aí que ligamos à Cristina Pincho e o nosso percurso mudou e pronto, 22 meses de amamentação com muito gosto.

Eu estava informada e sabia muito bem o que queria mas estava sozinha, sem obstetra, sem doula, sem pediatra, sem equipa consistente que nos acompanhasse, protegesse e defendesse aos 3.

Tudo o que eu quero é poder confiar no SNS numa próxima gravidez mas não sei se consigo pôr a minha saúde em risco novamente e entregar-me a quem não sabe (ou não quer) cuidar. É preciso mudar urgentemente, é preciso mais pessoal, turnos menores (quando é que vamos deixar de aceitar turnos de 24h?), mais afecto, docura, menos precariedade, mais seriedade perante as sucessivas queixas e acção sobre os profissionais, mais dignidade e respeito pelas mulheres, bebés e famílias, ah e eu não aceito outro puerpério sozinha, deixem os pais/mães fazerem parte dos primeiros dias da vida, tirem carga mental das mulheres, deixem as mulheres descansar porra, que acabe também essa violência.

Encontramo-nos dia 6 às 15h em frente à Ordem dos Médicos, e uma coisa garanto, não é preciso parir para lá estar, todes fomos parides e isso basta.

É preciso mudar a forma como se nasce em Portugal.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.