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O nascimento do meu primeiro filho matou o meu segundo filho

escrito por: Anónimo

22/11/2021

Os primeiros dias de vida do meu filho foram os piores dias da minha vida.
Que triste escrever isto, que triste ter vivenciado isto, uma tristeza profunda me consome, roubaram me a felicidade prometida dos relatos e dos filmes. Ouvimos falar de dor até ele nascer e depois felicidade e êxtase total. Para mim a dor real começou a seguir, e não por biologia mas por intervenção humana. A forma como fui tratada mudou a minha experiência e a minha dor.

Confio no SNS e sou uma defensora do mesmo e dos seus profissionais. Tinha ouvido falar de plano de parto mas tinham-me dito que os médicos não gostavam dos planos de parto, eu também não saberia o que escrever por falta de informação. Mais tarde comecei a escrever, com poucos pontos importantes para mim. No meu caso queria evitar episiotomia, queria pele com pele, amamentar na primeira hora, liberdade de movimento e ter o meu marido comigo.
Escolhi o hospital por permitir acompanhante, e na consulta discuti estes pontos que afirmaram ser prática do Hospital portanto não teria necessidade de escrever plano de parto (que idiota). Aí passei carta branca para fazerem o que entendessem, mas acreditei que pelo menos cumprissem a lei, pedir sempre consentimento antes de qualquer intervenção.
Errado.

Poderia relatar mas dava um capítulo de um livro, por isso enumero, de forma a reduzir também para mim, a pontos todas as agressões de que fui vítima, como se fosse possível diminuir a tristeza e a zanga deixadas.
Toques vaginais não consentidos, ter de recusar algália a chorar, ocitocina sem o meu conhecimento, passar fome, proibição de ir à casa de banho, proibição de me poder mexer, não me deixarem fazer pele a pele com o meu filho, ter várias pessoas a entrar pelo quarto no período expulsivo, que não sei quem são, procedimentos ao meu filho sem me informarem, darem gotas para o meu filho acalmar sem me pedirem autorização, negarem a minha dor (“é psicossomático”, “não teve nenhuma cesariana”), tirarem-me sangue sem o médico me ver e sem explicarem para quê, utilização de forceps sem explicarem alternativas, episiotomia sem conhecimento e sem consentimento, toques vaginais em pós-parto a gritar para não me tocarem, pessoas a agarrarem-me enquanto gritava para não me tocarem e a tocarem na mesma, falta de apoio nos cuidados de higiene e nos cuidados ao meu bebé, doer-me a amamentar e ter sangue e feridas nos mamilos e dizerem-me que é normal, não me ouvirem, negarem a minha experiência.

Precisei de dar nome a isto: violência obstétrica, e de me tornar vítima. Porque só sentia culpa, culpa de não me ter informado mais, de não ter tido uma doula, de não ter sido mais assertiva, de não ter reclamado logo no primeiro dia, no primeiro momento.

Não foi preciso o instagram me dizer que tinha sido abusada e mutilada e que existia violência obstetrica. Eu senti-o na pele, senti-me presa na maternidade e as enfermeiras eram as guardas prisionais e os médicos os diretores da prisão. Cometi o crime de ser mulher e ter engravidado.
Sim, a mortalidade à nascença diminuiu, sim o meu filho sobreviveu. Mas o meu segundo filho morreu.

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