Skip to content

O pai treme e tropeça

escrito por: Francisco Mouta Rúbio

27/02/2022

Agora, todos me obrigam a escrever-me assim: Pai. Não me lembro de ter sonhado ser pai. Mas os sonhos não se compram com moedas. Eu tenho um amigo que sonha ser Pai, desde os oito anos. O Afonso serve esses sonhos todos. Eu olho o Afonso, eu oiço o Afonso, escrevo e repito o seu nome tantas vezes até ensanguentar-me com a palavra: Pai. Bordaste uma frase na minha vida, ainda estou a perceber qual.

O teu choro desespera-me, o combate ao sono inquieta-me e a tua fome por atenção abre uma ferida interna. Ter uma ferida desesperando os nervos do corpo não é ser pai, é ser humano. Choras porque tens medo de ficar sozinho? Não estás sozinho nisso. O mundo inteiro tem medo dessa solidão. Continuo perto de ti e por fim não choras, adormeces num vazio intempestivo onde pernoitamos juntos. Afinal, somos Pai e Filho. Eu e o Afonso. O meu braço e o seu infímo corpo.

Acordas e ao meu colo, de olhos afiados, viajas por esse mundo inteiro a que chamamos casa. Nesses passos repetidos pelos mesmos metros quadrados encontro as ideias que deviam estar deslocadas, esquecidas debaixo da secretária onde me podia sentar o dia inteiro, antes de chegares. Agora, ao caminhar contigo, vou desempoeirando tamanhos que jamais alcancei. Obrigado, por me ensinares como habitar estes pensamentos. Quantas casas dentro da nossa casa encontrei.

Dispo estas palavras enquanto te balanço. Voltas a adormecer e fazes despertar este texto, já no ponto final. Antes, qualquer palavra eram lascas da imaginação. Agora é essa imaginação que me ajuda a escrever-nos, Afonso. Observo as tuas unhas de tamanho imedível, os ténues fios do teu cabelo, as pestanas milimetricamente longas da tua mãe Vânia. Ela escreve-me: se um dia morreres antes de mim, que a minha morte seja assim. Contigo por cá, a casa encheu-se de poetas vivos, Afonso.

Oiço comentários ao teu pequeno corpo. Moreno como o pai, mais branco como a mãe. O
cérebro alongado significa que vais ser inteligente. E deixa ver a pilinha, ui tão grande, assim está bom para as meninas. Isto tudo, claro, porque o nosso país não é racista ou misógino. Não, isso devem ser anotações absurdas do teu Pai, vão para o caderno esquecido.

Esses olhos, onde cabem o mundo, estão abrigados num franzir de sobrolho que desconvida quem pensa que por seres bebé pode mexer, dizer e fazer o que quiser com o teu corpo de 64cm. Os teus esgares são pérolas caídas no fundo de cada segundo. Foi desses olhos que ouvi pela primeira vez a tal palavra: Pai. Há olhares que se guardam para a eternidade. Quando abres o sorriso o meu coração aconchega-se na certeza que daqui em diante todos os dias saberão a um de setembro. Uma careta e mudas a velocidade da respiração, cheiras a cinco meses de vida.

Indecifrável esse cheiro do tempo que ontem os meus amigos, pais há longos meses, me pediam para te aprofundar. A pergunta, em concreto: Ainda cheira a bebé? Percebi logo: aproveitar esse cheirinho que deve estar a desaparecer com o tempo. Esse tempo que nos suja, embrutece, e nos prepara para sermos reais, prontos a navegar no mundo cruel.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.
×

Subscrever newsletter