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O parto

escrito por: Anónimo

20/03/2022

“Aquela rapariga tem um anjinho a olhar por ela lá em cima”, é esta a frase que ecoa na minha cabeça várias vezes enquanto tomo banho já em casa, e choro, choro sem saber porquê e choro por tudo. Na verdade em relação a anjos, santos e deuses ainda muito tenho para definir na minha cabeça, não sei se algum dia vou ter certezas mas não deixo de pensar neste “anjo” que supostamente deu um sinal para que as coisas tivessem corrido bem.

Tive uma gravidez normal até às 28 semanas, no entanto sempre assombrada pelo peso a mais que tinha, e o medo de que isso pudesse fazer a minha bebé pouco saudável. Apesar de nunca ter tido a certeza se foi o meu peso que influenciou ou não, às 28 semanas aparece o sinal de alerta: a bebé não estava a desenvolver o suficiente e eu teria de ficar de repouso.

Fiz tudo o que me recomendaram e praticamente não me mexi quase dois meses. Apesar disto, o parto foi marcado para as 37 semanas porque já não existiam garantias de que a bebé ficasse bem dentro da minha barriga mais tempo. Vem a culpa número dois. A juntar ao peso a mais, vinha agora a sensação que o meu útero não era casa o suficiente, eu, o meu corpo não estava a ser suficiente, zango-me com ele, ou melhor, permaneço zangada com ele porque não gosto dele há muito tempo… Mas essa é uma história diferente.

Em 5 dias preparo-me para um parto induzido mas que se esperava que fosse normal porque até à data nada indicava o contrário. Vou para a maternidade calma e feliz e às 9h30 tomo o comprimido para a indução às 11h00 levo a epidural a meu pedido. Continuava calma e a minha médica vem ver como estou e verificar a dilatação. Acho que quando me avalia percebe logo que alguma coisa não está bem e diz-me que me vai rebentar as águas e é aí que tudo muda.

“Vamos ter de fazer uma cesariana já, tem uma hemorragia interna e eu não vou arriscar esperar mais”. Devia ser meio dia e pouco, nem sei bem, eu estava com um copo de chá na mão mentalizada que só ia parir na melhor das hipóteses lá para o meio da tarde e de repente a minha cama está a ser levada pelo corredor. A minha imagem são luzes e pessoas apressadas. Sinto a pressão para a anestesia começar efeito e a minha médica apreensiva. Tento ficar calma, o pai está quase a chegar ao pé de mim e enquanto isso a enfermeira, que tenho mesmo pena de não me lembrar do nome, acalma-me, dá-me oxigénio e tira-me a máscara que nunca mais ninguém me voltou a pedir para a colocar novamente. Obrigada por isso.
Nesta fase acho que só estava calma por causa das quantidade de drogas que tinha em cima e enquanto me faziam a cesariana não me lembro se pensei em alguma coisa. Sentia mexerem-me por dentro mas eu pouco mais sentia… A culpa número três só mais tarde apareceu: mais uma vez o meu corpo a atraiçoar-me… “Nem para um parto normal serves” ecoavam as vozes na cabeça. De repente um puxão, um vazio na barriga e ela nasce.

O alivio de estar inteira e bem, respiro, o pai chora, eu não sei… Parece que não tive tempo de perceber que ia ter uma filha, e numa hora ali estava ela. Com o decorrer dos dias e com a não amamentação por várias questões sendo a principal a necessidade que a bebé ganhasse peso rapidamente e o facto de eu não ter leite nem colostro nem nada para lhe dar… Culpa número quatro, curioso, corpo a não responder outra vez…

Nos primeiros dias do pós parto o meu baby blues eram estas quatro culpas, uma voz mesquinha que me dizia estas frases no final do dia, principalmente quando me apanhava sozinha, a grande sacana… Com o passar dos dias e dos meses tento perceber a sorte que tive. Não sei se foi o “anjo” ou não mas a minha filha nasceu bem e eu fiquei bem. O meu corpo permitiu-me gerar uma vida e guardá-la até uma semana segura para ela nascer. A minha filha não mamou mas sempre se alimentou bem e com vontade, sorri para mim todos os dias e sei que se sente segura.

Não tive a gravidez ou o parto que gostava, não tenho o corpo que queria mas tento hoje ser mais gentil para ele. Tenho comigo a minha filha e por isso tenho de me perdoar.

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