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O que ninguém me contou sobre o segundo filho

escrito por: Ana Jorge

11/01/2022

A maternidade é repleta de clichés. Bons clichés e, na sua esmagadora maioria, correspondentes à verdade. Porém, clichés. O que a maternidade, ou a forma como se fala dela, tem também de sobra são tabus. Coisas que se guardam, coisas que ninguém diz, porque parecem cruéis ou porque nos fazem parecer menos competentes ou porque são, simplesmente, difíceis de abordar. Como as hemorróidas, por exemplo. Tantas as temos, tantas as negamos!

Mas bom, nove meses depois de oferecer ao mundo a pessoa maravilhosa que espero que o meu filho venha a ser, sinto-me finalmente capaz de reflectir na experiência da maternidade repetida. No meu caso, pela segunda vez. Para o fazer, compilei uma lista de coisas que ninguém me contou acerca do que é ser mãe pela segunda vez. Talvez alguém se identifique, talvez eu seja só estranha, mas estou em crer que a primeira opção é mais viável.

Cá vai:

1- É difícil, durante a gravidez, assimilar que vamos conseguir amar tanto outro ser humano. Não parece possível e isso faz-nos sentir muito culpades.

2- A primeira gravidez não serve de indicação à forma como correrá a segunda. O mesmo para o parto. Um mesmo corpo pode reagir de formas maravilhosa e assustadoramente diferentes à mesma experiência física.

3- Em diferentes momentos da vida e do dia, vamos identificar-nos mais com um dos filhes — ou porque precisa de mimo, ou porque acordou mais bem disposte ou porque algo na nossa cabeça e no nosso instinto nos diz assim. É OK, está tudo bem, faz parte e ninguém sairá traumatizado da experiência. À partida.

4- Para os pais, mais uma pessoa significa mais trabalho, mais logística, mais horários, menos horas de sono e menos liberdade. Para os avós, é mais uma fantástica oportunidade de anular todo o nosso trabalho para tentar educar as pequenas feras.

5-Às vezes toda a gente cá em casa janta cerelac. Às vezes é arroz com ovo estrelado, se houver arroz já feito no frigorífico. Ups.

6- Passar a segunda criança para o quarto da criança mais velha quando as condições de espaço assim o exigem requer um doutoramento em ciências do sono. Incrível oportunidade para crescerem juntas as criancinhas. Um drama para o resto da família. Send Help!

7- O choque mais brutal é passar de zero para um. A partir daí é só adicionar trabalho e diminuir descanso, mas o corpo já se habituou por isso não parece tão difícil. Atenção: eu escrevi “não parece”. Na realidade, é cada vez mais difícil.

8- Uma casa em silêncio já era uma coisa muito boa antes. Agora, é uma dádiva dos céus. Mas nunca por demasiado tempo — acontece que afinal gostamos de os ver por a casa em pantanas enquanto gritam e andam à batatada.

9- Saí de casa e não me esqueci de nada? ‘Tá feita a semana, provavelmente o mês e o ano inteiro. Sou a maior!

10- Por mais louco que tudo seja, olho para eles e apetece-me ter mais. Caramba que fazemos pessoas mesmo bonitas!

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