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On acids

escrito por: Diana Matos

31/05/2021

Não sabia que era possível ser feliz assim, amar tanto e, ao mesmo tempo, já não saber quem sou. Voltei para casa do hospital e, segundo a auxiliar que me acompanhou no elevador, “nem parece que veio parir”. Ah, mas fui! Eu sinto que sim, fui parir e pari. Está tudo bem e não está: aquela sensação bizarra de que o meu corpo já não é meu, o meu centro de gravidade mudou, cadê eu? Sempre quis ter filhos mas nunca sonhei estar grávida. Nunca romantizei a maternidade, estar grávida foi o meio para atingir um fim. Ou o início da transformação. Por muito que me custe assumir isto, tinha medo de engordar muito na gravidez e sentir que tinha que me defender sem ser mal educada para os profissionais de saúde. A minha mãe sempre engordou muito em cada gravidez, minha e do meu irmão. O meu percurso de viver em paz com o meu corpo nos últimos 10 anos foi o que me permitiu não ficar paralisada de medo nem duvidar que seria capaz de carregar este pequeno alien durante 9 meses sem enlouquecer nem ter que me justificar a ninguém. À medida que o tempo avançou, deixei de querer saber. A minha barriga preencheu lateralmente, nada de extraordinário, quase nem parecia grávida (só gorda) até ao terceiro trimestre. E até teria dado jeito antes para furar filas intermináveis nos supermercados em plena pandemia. Mais 9kg às 41 semanas. Fuck the police! Mas claro que metia aquela mãozinha na barriga a dar festinhas que na verdade sinaliza “deixem passar que eu contribui para a perpetuação da espécie”. Sou bióloga e estes conceitos de que somos bichos são o que me tem mantido sã no meio do caos. Somos bichos pensadores, uns mais que outros, mas somos bichos.

Tive um parto que começou on acids (bolsa rota com mecónio) e não entrei em trabalho de parto espontâneo. Tantos meses a idealizar o parto fisiológico e a miúda passou-me uma rasteira. Decidi pensar no nosso parto de 30 horas como um desafio que teve um desfecho muito positivo e, olhando para trás, continuo mesmo muito feliz com tudo o que aconteceu e o apoio constante do meu amor e respeito de toda a equipa hospitalar. Depois do regabofe de bolsa rota, indução, epidural, febre, o meu bebé veio para este lado da terra após uma hora de período expulsivo sem laceração nem pontos e não sabia que “ela puxa bem! Ela puxa muito bem!” poderia ser dos melhores elogios que me fizeram na vida. Bebé limpinha com Apgar 10/10/10, colocada ao meu peito mal nasceu e fez logo xixi e cocó em cima de mim. Força, filha!

Lembro-me de chorar no banho nos primeiros dias porque nem acreditava que tudo tinha corrido tão bem e podia estar (ou ser?) feliz assim! Isso e as hormonas aos saltos. Ao sexto dia, voltei a ter tornozelos. Ao décimo segundo, enfiei-me nas calças de ganga compradas no primeiro confinamento e serviram bem. MILF oficial. (Lamento, camaradas feministas, não me tirem o cartãozinho por adorar esta piada tosca.)

Passados quase dois meses, não sei o que estou a fazer nem sei se estou a fazê-lo bem. Só sei que estou a fazer o melhor que consigo e a dar-lhe todo o amor do mundo, a acolher o choro da birra de sono aos berros aos meus ouvidos e beijos infinitos que nem sempre surtem o efeito desejado de a acalmar. A curtir os primeiros sorrisos e sons, a abraçá-la e cheirá-la sempre que acorda. Sigo sempre as pistas dela, passeamos na rua bem juntinhas no pano na sesta da birra do fim da tarde e durmo cada vez melhor de noite quase sem reparar que ela mamou ou quantas vezes foram durante a noite. Nos momentos de berraria, finjo que nunca me apetece fugir durante umas horas. Na loucura, deixar as mamas e voltar passado um dia! Por momentos sinto-me tão cansada que parece que estou a observar o meu corpo de cima, estou a pairar por cima de mim. E ainda agora começou. E tudo vai continuar a mudar, já mudou tantas vezes nestes curtos dois meses.

Rapidamente me apercebi que a maternidade é uma montanha russa sem horários nem paragens. A maternidade é o derradeiro desafio de resistência não remunerado nem devidamente recompensado em géneros: só em amor e no coração que nos saiu de vez para fora do peito. As frases feitas e clichés são todos verdade!

Só consigo sentir e vivenciar a maternidade assim graças ao terceiro elemento nesta família, o pai, com quem formo uma equipa vencedora. Mesmo nos dias em que só resmungo com ele porque estou cansada e não consigo verbalizar isso sem antes rezingar (depois lá me manco, falo e choro e passa tudo).

E foi finalmente este domingo passado que me caiu a ficha: estavam mais três pessoas na sala e a minha bebé, ao colo do pai, seguia a minha voz para todo o lado e não me largava. Enquanto me ria só pensei “Porra, já fui! Sou o centro do universo deste pequeno ser.” Ela é minha e eu sou dela para sempre.

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