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Os casados não estão mortos

escrito por: Andrea Guerreiro

26/11/2021

O grande tabu, o tabu dos tabus, é o sexo no âmbito das relações estáveis. Alguém sabe se as amigas têm sexo satisfatório? Ninguém fala disto. Tenho intimidade sexual com o meu marido há 13 anos. Muita coisa haveria para contar. Mas não contamos nada. Porque é o bastião da privacidade conjugal.

Atrás desta cortina de silêncio, escondem-se histórias de mulheres que não têm um orgasmo há anos, sexo por obrigação, fantasias não concretizadas, gostos desalinhados, dificuldades crónicas de comunicação. A única coisa de que vamos falando em sociedade é da falta de líbido, agudizada no pós-parto (quanto tempo dura um pós-parto mesmo?). E quando se prolonga indefinidamente, será um diagnóstico ou um sintoma?

Recentemente acariciava-lhe o cabelo e notava uma nova vaga de cabelos brancos. E senti que quero fazer amor com ele até que tenha o cabelo completamente grisalho. Ao longo dos anos, temos amadurecido juntos, a todos os níveis. No início o sexo era uma dança descoordenada. Não encontrávamos palavras para nos expressarmos. Não éramos livres para propor. Muito menos para pedir. Vínhamos cheios de preconceitos. Dominados por papéis de género. Sentindo a pressão dos ideais pornográficos relativos ao desempenho e ao comportamento, de como se geme e de como se lança olhares. Damos por nós a levar demasiado a sério o que é para ser divertido. Apesar de jovens, não era assim tão bom.

Dia após dia, juntos, sentindo-nos tanta vez um tanto quanto envergonhados e expostos, aprendemos a verbalizar. E aceitamos explorar o que desconhecemos. Percebemos que tudo quanto existe no mercado está ao nosso serviço e que é um erro dizer que não sem experimentar. Expressamos o que nos passa pela cabeça, porque os únicos limites para a intimidade de um casal são aqueles que o próprio casal impõe. O que ele acha que vai gostar, o que eu acho que vou gostar. Com respeito, mas aceitando (como em tudo na vida) caminhar para lá da zona de conforto.

Largamos as inseguranças em relação ao nosso corpo. Compreendemos que o outro nos deseja como somos, apesar do que somos (achamos tantas vezes que o que somos é pouco). Percebi que o sexo é bom com 80 quilos nas vésperas de parir. E com 55 e as mamas completamente sumidas. Estamos juntos porque queremos e renovamos essa vontade todos os dias. Aquele ato é o expoente máximo da nossa entrega, uma declaração de amor. Quando nos predispomos a fazer esta caminhada, de tentativa e erro, de enorme vulnerabilidade, os ganhos pessoais e conjugais são enormes. Há mais prazer. E é mais intenso.

Nenhum casal está condenado a ter mau sexo. Não é um assunto assim tão secundário. Na verdade, é das poucas coisas comuns a praticamente todos os casais. Entusiasma-me, particularmente, saber que temos 60 anos pela frente para continuar esta descoberta. Acredito que à beira da morte, há-de bastar um olhar.

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