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Parto Pedra

20/05/2021

A Dr. Adelaide entra no quarto e eu reparo numa outra enfermeira que está a assistir-me há algum tempo mas não entrou na minha memória. “Dulce, o que diz de usarmos uma ventosa? É só um jeitinho, a cabeça está mesmo aqui, eu dou um jeitinho e posiciono e depois a Dulce acaba o trabalho. O que acha?”, pergunta a médica. E eu digo que não sei, não sei, mas confio.

Estou no fim de mim própria. O André vem para o pé de mim e afaga-me o cabelo, sorri, acena com a cabeça e eu sei que o mundo está em equilíbrio, entrego-me. Respiro fundo, muito fundo. Não sinto a ventosa, sinto uma dor inconcebível e uma onda gigante a tomar conta de mim. “Puxe, agora puxe” e empurro e sinto-me rasgar em todas as direções, parto é não é uma expulsão, é uma explosão. O meu grito há-de ter acordado todos os bebés do mundo. Visualizo o meu colo a rasgar-se e todos os tecidos a lacerar, a sangrar, a abrir.

Não sei quantos segundos, minutos foram, isto não é coisa de tempo ou de espaço, isto é uma ponte, a passagem por um sítio misterioso, instantâneo e eterno, o tudo e o nada, o absoluto que é dor e prazer e o máximo que se pode atingir. E a pura magia: sai um bebé de dentro de mim. O nosso bebé. Vejo as mãos das enfermeiras cheias de sangue e o corpo minúsculo, vejo a cabeça, o cabelo penugem, vejo o sexo. “´É uma menina!”, aplaudem todos. Sorriso, suspiro. Ela chora. Eu deixo cair a cabeça sobre a cama. Cumprimo-nos. Nasceu. Nascemos. O André acaricia-me, deve ter a cabeça cheia da imagem da bebé a nascer, afinal ele é que viu, eu não. Reparo agora que há uma luz apontada para o meu colo. Meia noite e oito minutos, este filho sabe que quer.

Pousam a bebé na minha barriga, o cordão umbilical é curto. Um peso que era do lado de dentro está agora do lado de fora: barriga cheia, barriga vazia. Uma plenitude de sentido enche o quarto. Olho o André, sorrimos, o mundo está em êxtase. Um ciclo fecha-se, um ciclo abre-se. A bebé pulsa em cima de mim, pele com pele, e é linda, perfeitíssima, frágil. Depois o André, atordoado, vai cortar o cordão umbilical e diz: “Parece maracujá”. Depois levam a bebé para os primeiros exames, o André segue-a, eu fico deitada à espera que saia a placenta, o mais breve órgão do meu corpo. Depois, lentamente, a médica puxa o cordão. É grande, velha, cinzenta, feia e vai directamente para o lixo. Depois relaxo. Creio que perco a noção das coisas por uns momentos, uma espécie de reconfiguração, começar tudo de novo. Recomponho-me. Amo o André em novas camadas.

O quarto cheira a sangue e a carne vencida, a líquido amniótico e a suor. Um cheiro quente e azedo, que sairá de mim por longas semanas, que me incomoda e não faço ideia porquê mas hei-de passar muito tempo a pensar nisso.
A médica avisa que terei grandes sangramentos nas próximas horas e que vão diminuindo nas próximas semanas. Mas que estou praticamente intacta, no meu períneo vê-se apenas uma pequena laceração que em dias desaparecerá. O André dirá que ficou admirado como afinal a vagina não é assim tão elástica, como não dilata tanto como imaginava. Nada de pontos, em breve estará como sempre foi. Curioso que eu me tenha sentido rasgar por completo.
A bebé volta para junto de nós, é a Sara. Agora já podemos completar o “SA” da etiqueta da cama. Baptizamo-la Sara Sete-Ventos, mas até ao dia seguinte haveremos de duvidar do nome Sara. Havemos de voltar à lista de nomes que tínhamos feito e lê-la até chegar a Salomé e saberemos imediatamente que Salomé tem de fazer parte do nome. Riremos disso. E tentaremos ainda regista-la Sete-Ventos, mas a inconveniência das regras assim dita: Sara Salomé.
A Marília pousa a Sara sobre o meu braço esquerdo (saberá que sou esquerdina?) e aponta a pequena cabeça para o meu peito. Automaticamente, num ímpeto sem explicação, ela mama: mama mais de meia hora, e adormece.

O André quer ler um poema. Apercebemo-nos que só trouxemos poesia triste, do Manuel António Pina e do Miguel Torga. Lê então, em voz doce, uma página das Cidades Invisíveis:
Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
– Mas qual é a pedra que sustém a ponte? — pergunta Kublai Kan.
– A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra — responde Marco, — mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta:
– Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.

Ao voltar ao meu estado de consciência, assalta-me a ideia de família que toma conta de todo o meu pensamento com uma intensidade inédita: passo a noite toda de mão dada com a Sara a pensar nisto e a chorar de cada vez que acontece tocar na barriga mole, vazia.

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Este texto é um excerto do livro “Parto Pedra” com texto e imagem de Dulce Cruz e alma do André da Loba e da Sara Salomé, publicado em 2019 pela Pettra Books.

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