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Pertenço-lhes

escrito por: Andrea Guerreiro

21/05/2021

Nos dias em que a sensação é de perda de identidade, fantasio com um mundo em que não tenho filhos.

Sou livre para sair porta fora e ir ver o mar. A qualquer hora. Entrar pelo mar adentro e afundar-me na água gelada até que me falte o ar. Até que o instinto de sobrevivência me traga para a superfície.

Sou livre para me perder numa floresta, de mato serrado, e andar a vaguear horas na chuva, encharcada das sapatilhas de pano às pontas do cabelo. Gelada, a inspirar aquele cheiro terroso a eucalipto, com o capuz do impermeável a tapar-me parte da visão. Apanhar uma gripe tremenda e ficar de cama três dias. Três não, cinco. Sete! Uma semana de canecas de chá quente, livros e corpo em repouso. Sem ter obrigação de me levantar.

Sinto-me tão privada. Tão privada de liberdade. Porque mesmo quando vou, tenho hora de regresso. E mesmo que não tenha hora de regresso, tenho dia. Não me posso perder de mim mesma. Porque lhes pertenço. Que prisão.

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