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O peso da maternidade

escrito por: Ágata Xavier

28/05/2021

Falemos de peso no sentido literal e de como este pode reflectir outro tipo de peso. Ganhei 17 quilos em 40 semanas e uns dias, qualquer coisa como nove meses. Perdi 21 quilos em 12 semanas, o que equivale a três meses. A meio de Março de 2020 fui para casa, como quase toda a gente, e de lá só saí a meio de Maio, directamente para a maternidade. Esses dois meses foram passados em casa, isolada, com quatro pessoas a verem o balão a encher: o meu marido, os meus sogros e a enfermeira-parteira que nos deu o curso de preparação para o parto. Nessa altura o isolamento não me chateava, até me sentia protegida.

Não gostei assim tanto de estar grávida, não me sentia particularmente bem ou bonita nem com aquele brilho (qual brilho?) que as pessoas teimam em repetir. O cabelo estava forte e brilhante, é um facto (ou seria apenas o sol a bater nos brancos?), mas, tirando isso, estava cansada, lenta, ansiosa, tinha medo que alguma coisa corresse mal e havia um vírus desconhecido a fechar pessoas em casas — e a fechar grávidas em quatro paredes feitas de cortinado, sozinhas durante vários dias, algumas separadas dos filhos recém-nascidos. Gostei de estar esses dois meses em casa, só com eles, os meus dois rapazes, um fora e outro dentro da barriga. Gostei de ter tempo para arrumar tudo com calma, de me organizar e de não fazer nada. Gostei de crescer sem ninguém a ver. O problema foi ter saído.

Saí para uma experiência traumática da qual demorei vários meses para me recompor. Não era baby blues, não era depressão pós-parto, era algo novo para mim e sobre o qual se começa a falar e a estudar cada vez mais: stress pós-traumático associado ao parto e ao recobro. Revivi durante meses a antipatia e negligência de uma equipa à qual nunca vi a cara. A primeira coisa que me disseram quando cheguei à enfermaria, mãe há menos de duas horas, foi de extrema insensibilidade. Não houve um olá, boa noite, como se sente. “Não sabe que a primeira causa de morte súbita é a desidratação causada pelo excesso de calor? O seu filho está com demasiada roupa”— o vulto encostou a minha maca à cama, esperou que eu rebolasse até ficar deitada novamente, e seguiu para a sala de pessoal sem dizer mais nada ou sequer me ajudar a despir o bebé. A partir daí, presa entre quatro cortinas e presa a uma luxação no cóccix que me impedia de sentar ou andar, não tive qualquer ajuda.

Só eu e o meu bebé nos braços, durante quatro dias, quatro longos dias, entre fraldas sujas e corpos por lavar, refeições que eram pousadas numa mesa no centro da sala para garantir o distanciamento de segurança (“Se quiser comer, levante-se e vá buscar”), e dores, claro (“Não se queixe muito que você nem fez cesariana.”). Foram vários os episódios, demasiados, alguns já embaciados pelo tempo.

Cheguei a casa sem me conseguir mexer e demorei uma semana a conseguir ir do quarto para a sala. Tudo era lento e doloroso, incluindo o ruminar das más memórias. Durante meses senti-me dividida ao meio. A mulher feliz, mãe de um filho que desejei muito, com o melhor pai e cuidador do mundo, que passeava pelo país e, pasme-se, até ia a alguns restaurantes sem medo que o bebé incomodasse terceiros — sempre acompanhada pela almofada ortopédica (da qual nunca tive vergonha). E a mulher presa a palavras e imagens difíceis de encaixar, que chorava quando se lembrava de tudo, que se sentia culpada por não ter mandado ninguém à merda ou gritado até me darem comida e ajudarem a mudar a fralda ao bebé. O meu problema estava ali, circunscrito àquele episódio, delimitado por panos, numa experiência traumática empolada pela falta de companhia.

Duas mulheres que caminhavam lado a lado, como linhas rectas paralelas. 21 quilos a menos depois, os tais três meses, com a balança a marcar abaixo dos 50, comecei a ouvir o mais perigoso dos comentários: “Estás óptima! Recuperaste num instante!”. Seguiam-se explicações aleatórias do lado de lá, comigo em silêncio, das quais destaco: “Pois, tu sempre foste magra!”, “Realmente amamentar ajuda muito a perder peso!” ou “Que inveja! Não há nada como ter bons genes!”. Felizmente a máscara ajudava a esconder o sorriso amarelo. E só quando fui tratar dele, literalmente, à minha médica dentista de sempre é que senti que havia alguém do outro lado a querer ouvir.

Foi, pois, numa cadeira reclinada, com holofotes a apontar para a boca (numa leve semelhança com o bloco de parto) que chorei pela primeira vez ao pé de outra pessoa que não o meu marido. Um dilúvio que foi um alívio. E foi a partir daí que procurei ajuda: primeiro curei o corpo com sessões semanais de fisioterapia (e voltei a sentar-me sem recurso a uma almofada ortopédica passados cinco meses), e depois fui curando a cabeça, com sessões semanais de terapia (e voltei a ser só uma).

Penso muito nas mulheres que não sabem, não podem ou financeiramente não conseguem ter este tipo de apoio. Mulheres que não têm uma rede ou não se revêem na rede que as envolve. São quase todas.

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