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Poeira-estelar

escrito por: Inês Matos de Andrade

23/11/2021

Cresci a achar que o amor dos pais é incondicional e garantido. Foi preciso passar dos trinta para entender que há pais, muitos, que abandonam os filhos, mães disfuncionais que nunca deviam ter parido, famílias não tradicionais mais estáveis do que as heteronormativas. Demorei trinta anos a perceber que os meus pais me educaram inteira. Nunca se contradisseram, nunca me usaram como arma de arremesso.

A minha mãe é uma feminista, rejeitou sempre o que os homens esperavam dela. O meu pai sempre me educou sem género. Tu para mim podias ser um rapaz, era-me igual, dizia. Porém, não há como negar o meu intenso complexo de Electra — só na parte da admiração, não te quero eliminar mãe, tem calma. A minha mãe tem alguns ciúmes e com razão. Afinal, esta dualidade mais não é do que o estereótipo sexista do pai sempre relaxado e a progenitora sempre tensa. Já tenho idade para saber que as mulheres são sempre penalizadas por terem de ser duras, pragmáticas, difíceis. O meu pai não seria quem é sem a minha mãe e eu dificilmente seria o que sou sem este combo pai-fixe, mãe-megera. Agrada-me, porém, que o meu paradigma familiar difira dos restantes nas tarefas e papéis. Graças à minha mãe, pois claro. Ao contrário do que a sociedade patriarcal quis, é ela a mais culta do seio familiar. Estudou de noite e trabalhou de dia, de filha no útero. Ensinou-me o significado de nadir e concupiscência, a organizar a biblioteca por ordem alfabética do apelido do/a autor/a.

O meu pai não terminou o nono ano, diz “parteleira” e “selada”. Porém, foi ele quem arranjou solução para diminuir o peso de um banco de um carro numa empresa automóvel, desenvolveu moldes em metalurgia, liderou uma vidraceira como chefe de produção, sendo o primeiro a introduzir guias de remessa para controlar corrupção e compadrio, vendeu café de porta em porta, abriu uma mercearia. Sempre um bom executor na ponta dos dedos da maestro que era e é a minha mãe. Enquanto ela
ganhava mais numa multinacional alemã, ele cuidava de mim em casa, ensinava-me a cozinhar e eu preferia andar de volta dos tachos do que de os nenucos e barriguitas. Só que era a minha mãe, distante no turno da noite, quem sabia se o meu aproveitamento escolar estava em crise. Explicava-me frações e probabilidades, enquanto o meu pai me mostrava como raspar sujidade do fundo das frigideiras com vinagre quente. Foi com ele que galguei ondas no mediterrâneo e enjoei em rodas gigantes das feiras populares. Deitou-se madrugadas a fio junto à minha cama porque eu só adormecia a encaracolar lhe o cabelo. Nos bastidores a minha mãe decidia o meu futuro. Delegava para ele as experiência mundanas, os picos de adrenalina, as memórias registadas em VHS, enquanto escolhia a melhor escola, o melhor método de aprendizagem, a árdua gestão de horas de explicação em cadernos quadriculados, a necessidade de acompanhamento psicológico. Ele iluminava os dias cheios e soalheiros, ela resolvia os temporais chuvosos enquanto eu dormia, alheia às variações cinzentas que a vida pode ter. O meu pai acordava-me em invernos frios e cantava chuva, chuva, chuvinha, vem cair do céu à terra. Foi com ele que aprendi a cozinhar. Ensinou-me que o peixe no mercado deve ser amanhado sem tirar as escamas, nem lavar, e que o queijo fora do frigorífico tem mais sabor. Recebi dele alguns dos melhores presentes. Quando nos mudámos para uma zona residencial, as ruas ainda não tinham nome e ele pregou uma placa na nossa na qual se lia “Rua 28 de Julho”, o dia em que nasci.

Ainda pequena, o meu pai costumava ler-me um livro só com imagens. Contava a história do ratinho Max, que saía de sua casa de guarda-chuva no braço para apanhar morangos. Espetava o guarda-chuva na relva da pradaria e seguia na recolha dos frutos vermelhos, deixando-o para trás sem notar. Quando começava a chover, a imagem mostrava o rato Max a saltar no campo, mas eu achei que ele estava chateado e molhado. O meu pai desenhou um guarda-chuva ao bicho, provavelmente para não ter de aturar a minha birra, mas isto para mim foi sempre uma metáfora do que ele é para mim: um protector, um aconchego, umas mãos e braços gigantes dentro dos quais o mundo é pacífico e silencioso.

A minha mãe fez-me crer que Ulisses de James Joyce era a derradeira prova literária de um consumidor de livros. Apresentou me Noam Chomsky e Naomi Klein. Ouvi com ela Leonard Cohen, Chico Buarque e The Doors. The Köln Concert de Keith Jarrett tornou-se o meu favorito depois de o meu pai colocar o CD a tocar no carro. A minha mãe forrou os armários do meu quarto com banda-desenhada de Eric Stanton, Dominant Wives. Como é que eu não havia de sair uma feminista?
Estou familiarizada com a ética de Edgar Morin por causa dela.

Contudo, foi ele quem me explicou, trocando por miúdos, a teoria da relatividade. Voltávamos da mercearia, certo dia, às nove da noite. Na bagageira iam postas de pescada fresca que haviam sobrado, seria o nosso jantar. Não gostava de pescada cozida na altura, aprendi apenas com o tempo e a maturidade o valor dos produtos. No céu limpo, as estrelas brilhavam e o meu pai disse-me que parte delas já não existiam, mas a luz que têm demora tanto tempo a chegar a nós e elas estão tão longe, que, na verdade, olhar o céu é assistir ao passado.

Se eu pudesse viajar até às estrelas à velocidade da luz, com um virtual telescópio potente de observação da Terra, poderia observar o dia em que nasci. E é nisso que me tornei, poeira estelar dos meus progenitores, que fulge na Terra
como um rasto do meu passado e da minha infância.

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