Skip to content

Pós-parto-apocalipse

escrito por: Marta Cerqueira

01/07/2021

Preparei-me para um pós-parto-apocalipse.

Disseram-me para encher o frigorífico de refeições prontas a comer, porque nem iria ter tempo de cozinhar. Aconselharam-me a dormir tudo o que podia, porque depois esquece lá mais do que duas horas seguidas. Falaram-me dos mil cremes para os mamilos, mais os protetores, mais a bomba e as aplicações que monitorizam cocós, xixis e até te dizem qual a mama que deves oferecer a seguir.

E eu pensei, pronto, é o fim.

É, de facto, o fim de muita coisa. Acabaram-se as noites de insónias que a gravidez me trouxe, essas sim, sem me dar mais do que duas horas de descanso. Acabou-se um intestino mirrado que me obrigou a andar à cata das papaias mais maduras de Lisboa. Acabou-se o enfartamento depois de cada refeição, explicado depois de ver cá fora um bebé que só contorcionista poderia caber na minha barriga que, às 40 semanas, muitos acreditavam estar ainda na metade.

O pós-parto não foi o apocalipse que esperava. Está a ser, na verdade, bastante fixe. Digo isto até com medo, não vá — como diz a minha avó — “uma bruxa ver-te” e o menino passar a incorporar o demónio.

A gravidez foi uma merda, não há cá floreados. Enjoos, hemorróidas, ciática, órgãos esmagadinhos, covid, confinamento e nem um copo de vinho para relaxar ao fim do dia? Não me lixem.

A gravidez, por não ser planeada, caiu que nem uma bomba num terreno pouco virado para a maternidade. Eu sei como se fazem bebés, não pensem que andei ao engano. Mas uma amenorreia de anos ditava que deste útero nem sangue nem bebés. Mas ele apareceu e mesmo no meio de tanto pensamento negativo, foi ocupando-me as calças e a cabeça. “Se calhar não vou gostar dele”, pensava muitas vezes. Rapidamente deixei de fingir sorrisos quando me perguntava se estava feliz com a gravidez e encarei a coisa como uma tarefa a cumprir. Uma vez ouvi um podcast no qual a Isabel Stilwell dizia que as mães desta geração, como crescem sem bebés ao lado, assumem a maternidade como uma tese de mestrado. Leem, fazem workshops, cursos, instalam aplicações e só falta tirarem pós graduações para estarem preparadas para aquilo que é sempre uma surpresa.

E a minha foi a maior de todas. Não é que afinal até gosto do meu filho? E acho que ele também gosta de mim, que aquele sorriso de ontem já não foi só um reflexo ao leite que me sai das mamas.

E os dois estamos a construir-nos como gente que já não vive um sem o outro. Bem sei que metade de mim é leite, mas já sinto ali algum amor em troca. E eu, quando preciso de alento, enfio a cara naquela barriga a espreguiçar-se nas manhãs lentas que nos fazem ficar na cama até ser uma vergonha.

Neste mês de Zé, cozinho sempre que quero e como sempre que posso. Dou de mamar quando ele pede e não quando uma aplicação manda. Já dormi mais horas seguidas do que em nove de hormonas descontroladas. Já comi mais pizzas e gelados do que em anos de distúrbios marados que me mandavam trocar as vontades por alfaces. E o melhor de tudo? Já chorei mais no último mês do que numa vida de bloqueio emocional, que nem todas as Anatomias de Grey do mundo faziam derrubar. Chorei quando as dores não me deixavam dar-lhe de mamar, chorei quando levou a pimeira vacina, chorei quando ele chorava sem razão, chorei porque pus Zeca Afonso para o embalar e chorei porque sim, porque ele é tão fixe que nem sei como é que saiu de um acaso.

Quando as lágrimas me saem como um vómito inesperado de quem quase desaprendeu a sentir digo, a brincar, “onde esconderam a Marta de antigamente?” Se souberem não digam. Deixem-me curtir esta versão.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.