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Profissionais de saúde

escrito por: Joana Filipe

28/05/2021

A MÉDICA DE FAMÍLIA

Não se esqueça, no máximo nove quilos. Está bem?

Suspirei. Minutos antes, a doutora pareceu-me desorientada entre os papéis, revezando o olhar entre os resultados do exame beta hcg e a cábula que assinala a idade gestacional. Não bate certo, não bate certo, notoriamente inquieta. Mas vá de férias e logo vemos. Se tudo correr bem, não se esqueça, no máximo nove quilos. Está bem?, e aperta-me a mão em jeito de despedida.

Descobrimos a gravidez dois dias antes. Íamos viajar por três semanas e tencionava salvaguardar-nos de escolhas irrefletidas. Marquei consulta de urgência com a médica que me vinha a acompanhar e que me disse, Não coma queijo, também.

Deixo bater a porta do consultório por trás de mim, engulo em seco, os olhos estão húmidos. O nosso bebé não vingará?, falo comigo. Ainda ontem nos deitámos nos braços um do outro, a tecer histórias a três, para dar lugar à imagem de sangrar o meu filho nos Alpes?

A MÉDICA OBSTETRA

Forcei-me a rejeitar o devaneio. Ressuscita o sol, nova consulta, nova médica, menos palavras, Está grávida, Joana. Os valores estão baixos, realmente. Repete o beta hcg e volta para a semana.

Estes meus olhos, sempre tão húmidos, perco-me em mim.

Tome, tire um lenço de papel, estende-me a mão, mas o olhar está na estrada. No caminho para o Cais Sodré, é a motorista da uber quem me seca as lágrimas com falas de conforto.

O tempo prolonga-se na espera, estanque até ao momento em que nos dizem, A gravidez é evolutiva. Parto serena, volto exausta. Ao quarto dia de viagem, as náuseas relembram-me que gero vida e troco o Coliseu de Roma pela cama. Em Salzburg, somam-se vomições. Arrastei os pés, mas senti-me abençoada.

No gabinete médico, o diálogo prospera. A doutora das curtas frases dá lugar à doutora das frases longas e de riso mais ou menos fácil. É também o primeiro colo do meu filho após me cortar o ventre. Já de barriga agrafada, beija-me a testa, Conseguiu, Joana. A voz é terna.

O MÉDICO RADIOLOGISTA, PRIMEIRO TRIMESTRE

Dói-me, mas estão com dificuldade em vê-lo, justifico a conduta do médico. Desconfortável com a resistência abdominal, força-se sobre mim e tudo me é alarme, Dói-te também, meu bebé pequenino?

Estou de pé quando me diz, Pouco consegui observar, deve perder peso. A voz ríspida, Pode esperar lá fora pelo relatório. Deixa bater a porta do consultório por trás de mim, tenho a garganta seca.

A MÉDICA RADIOLOGISTA, SEGUNDO TRIMESTRE

As minhas expectativas tocam o chão, mas o corpo vai perdendo a rigidez. Constato, É delicada no movimento.

A doutora abre o sorriso, No outro hospital, as minhas colegas sempre me pedem para ver os bebés das barriguinhas mais compostas. O enredo não me é estranho, mas não lhe há desprezo na voz. Ali está o Benjamim, olhe, olhe a mãozinha! Devolvo o sorriso.

A ASSISTENTE DO MÉDICO CARDIOLOGISTA FETAL

Não são oito da manhã e já passámos a ponte. Os raios de sol rasgam a janela, tudo me embala.

No hospital, uma voz acolhedora pergunta por mim, É a Joana? Aceno positivamente com a cabeça. Vou dando resposta às restantes questões, mas é quando me pergunta, Qual o seu peso?, que as mãos vão de encontro à cabeça, Ai, coitadinha! Mas não se preocupe, perde tudo num instante assim que o bebé nasça.

Caraças, ainda nem os nove quilos ganhei, como quem diz, Deixem-me a massa adiposa sossegada, irra*.

* A mulher gorda emprenha. A mulher gorda conduz gravidezes saudáveis. A mulher gorda pare crias resistentes. A mulher gorda some-se na culpa, num pedido de desculpas ao bebé que carrega, quando o profissional de saúde lhe aponta o dedo como impedimento ao bom profissionalismo e não ao equipamento de trabalho. A mulher gorda não cabe na bata do hospital. A mulher gorda é grávida excluída.

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