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Pudesse eu escolher um super-poder…

escrito por: Ana Jorge

25/01/2022

… e escolhia proteger os meus filhos de tudo o que os pudesse magoar ou fazer sofrer ou serem alguma coisa diferente de inteiramente e completamente felizes. Transformar-me-ia em escudo invisível, sugadora de dores, revisora de final de histórias — teriam todas o mais feliz dos finais. Nenhum dos meus filhos iria nunca sofrer dor nenhuma — quero lá saber que sofrer nos faça crescer! — e isso poupar-me ia, a mim, a maior dor do mundo. A felicidade deles conservar-me-ia. Lágrimas, só as de alegria. Dores, nada, nem as de crescimento nem as de coisa nenhuma. E calhando de se aproximar alguma, o meu super poder permitir-me-ia absorvê-la, sofrê-la eu, e continuar feliz porque nenhum deles a sentiu.

Hoje foi o pior dia de sempre para uma mãe que, como todas nós, não tem super poderes e não pôde proteger a sua filha da escuridão profunda da qual tantas e tantos se aproximam todos os dias. O sofrimento dela é o meu também e é o de todas nós que, incumbidas das tarefas mais supremas da vida — gerar, parir, amar, cuidar, proteger — temos que aceitar que nunca o poderemos fazer como gostaríamos. A cem por cento. Sofrendo no lugar deles. Morrendo na vez deles.

Vivo a maternidade na alegria constante de os ver crescer e o pânico debilitante de os ver sofrer. E por isso descobri finalmente a resposta a uma pergunta à qual eu nunca soube responder: “se pudesses escolher um super poder, qual escolherias?”.

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Nota: uma menina de 16 anos decidiu hoje terminar a sua viagem neste plano, depois de um ano de depressão profunda. A depressão na adolescência e em qualquer fase da vida é real — não é fita, não é mimo, não é gente à procura de atenção. Vamos olhar mais para o lado, estender mais a nossa mão e pedir mais vezes ajuda. Vamos cuidar da nossa saúde mental e da saúde mental das nossas crianças. Por favor.

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