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Que maravilha

escrito por: Joana von Bonhorst

03/11/2021

Estava sentada na mesa a trabalhar, a controlar as 638291 coisas que tenho para fazer e planos para o futuro e vi movimentos lá fora.

Na rua, passou um vulto. Não sei porque raio reparei (acredito que passem muitas pessoas enquanto estou com os olhos postos no ecrã) mas, desta vez, os meus olhos procuraram aquela figura humana.

Era um homem velho, com um boné preto da nike, de fato de treino preto e colete de penas por cima. Uma espécie de Anthony Hopkins à paisana por um bairro lisboeta. Curiosamente e contrariamente ao habitual queixume que vem com a idade, este homem estava visivelmente feliz. Ia a andar na rua, num passeio banal, num dia aparentemente sem beleza, a sorrir sozinho. Coisa rara. Toda esta análise foi muito rápida, uns segundos. Entre a minha janela e o seu passeio, uma estrada e vários carros estacionados.

Até que percebi. Por entre carros, consegui ver a razão. Este homem caminhava a empurrar um carrinho de bebé. Um carrinho com uma alcofa cinzenta, com um daqueles brinquedos coloridos pendurado e sorria. Um sorriso doce, entre o orgulho e a humildade. Eu sorri também.

Continuei a trabalhar com esta imagem preciosa na cabeça, até que o detectei pelo canto do olho uma e outra vez. Andava a percorrer o bairro, feliz da vida, na companhia da neta ou neto. Para a frente e para trás.

É maravilhoso como os nossos filhos podem ser bolhas de oxigénio para a nossa família. Bombas revitalizadoras que dão energia e alento. Que esticam o tempo e a vontade. Que dão coragem e propósito. Como com eles, nasce tanta gente. Tantos papéis, tanto amor. Aquele homem, estava mesmo ali, a curtir o seu papel e a companhia do seu pequeno ser.

Pensei como seria bom ser filha daquele homem (eu sei, eu sei.. não te precipites Joana). Que bom seria ter um pai. Que bom seria ter um avô. Que bom seria crescer rodeada de homens activos e cuidadores, merecedores e orgulhosos detentores dos seus títulos na minha vida. Que bom será testemunhar a entrega entre duas gerações tão distantes e que tanto aprendem juntas.

Talvez daqui a uns tempos os veja a correr na rua. Cada um à sua velocidade. Talvez nunca mais lhes cruze o olhar mas esta imagem de hoje, ninguém me rouba.

Que maravilha.

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