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Rede de apoio

escrito por: Catarina Neves

26/06/2021

Nos fins de semana prolongados deste mês consegui, finalmente, estar a sério com a família. Quando digo a sério, é estar, ter tempo de qualidade, e não apenas aquele “Olá” fugidio numa qualquer rua, para evitar estarmos em espaços fechados.

Na verdade, o primeiro destes fins de semana foi passado com a minha mãe e os meus avós que vivem em Espanha. A minha mãe conheceu o neto com 3 semanas e graças à pandemia e confinamentos vários não o tinha voltado a ver. Os meus avós, bisavós do meu filho, não o conheciam sequer. Vivi estes meses com a angústia de saber que o meu avô está cada vez mais velhinho, falava muito no bebé e em como se calhar não o ia conhecer. Mas conheceu. E foi maravilhoso.

O segundo fim-de-semana foi passado com os sogros, que embora mais perto, não tinham ainda estado dias seguidos com o neto. A minha sogra trabalha numa escola e teve sempre muito medo de poder transmitir o vírus ao menino, passou meses sem lhe pegar ao colo. Mas estes dias foram uma alegria tamanha para todos.

Acho que, por causa destes dias, só agora tomei consciência do quanto os últimos 8 meses, aqueles desde que fui mãe, foram solitários. Só nós os três em casa. Os três para tudo. Os dois para cuidar do bebé. Ou eu ou o pai, ou o pai ou eu.

“Fica-me só 10 minutos com o bebé para eu poder tomar um banho”- aquela frase repetida ad nauseaum por tantas mulheres no pós-parto. Mas mesmo nestes meses mais recentes. Mesmo quase a chegar aos 9 meses. Sempre nós os dois. Os três. Sem rede.

E aqueles fins-de-semana souberam-nos pela vida. Demos uma volta a pé pela aldeia dos meus avós, só os dois. Dormimos até às 9h30 num sábado de manhã. Alimentaram, mudaram fraldas, brincaram com o nosso filho. Eu consegui dormir a sesta duas vezes (confesso que uma delas com o bebé no meio de nós). Vi dois episódios de uma série de seguida, uau! Não fiz nem almoços, nem jantares, nem sequer tive de pensar neles. Não me preocupei com a roupa de ninguém. Não me preocupei com quase nada, especialmente nos dias em que estive com a minha mãe (afinal, mãe é mãe, não é?).

Tudo isto me fez pensar que nos últimos 8 meses, nós tivemos de chegar. Chegar a tudo. A ser mãe. A ser pai. A ser donos de casa. A ser novamente trabalhadores, agora com a função acumulada da parentalidade. A não ter descanso, um minuto que fosse, desta rotina.

Não escrevo este texto como vítima ou sentido pena de nós. Longe disso. É só uma constatação. É que na espuma dos dias perdemos muitas vezes a visão do todo. E nestes fins de semana, percebi o que era uma rede de apoio. Em quase 9 meses, foi a primeira vez.

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