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Se não é visto, não é lembrado

escrito por: Petra Vaz

09/12/2021

Vínhamos na autoestrada e vi um placar onde se lia esta frase, que ecoou dentro de mim, como se me sacudisse ao mesmo tempo que me agredia. nesse dia ao chegar a casa parei uns minutos a olhar para mim no espelho. “quem és tu que me olhas desse lado?”

Ao mesmo tempo que me sinto empoderada neste papel de mãe, capaz de tudo, serena e confiante no que é esperado de mim e no que espero ser e dar também, a verdade é que me sinto tão distante do que fui durante 35 anos que há uma estranheza, um desajuste, uma necessidade de reconhecimento do eu que sou hoje, além, antes e depois de ser mãe.

Eu própria não sei se me vejo, se me lembro de mim, se guardo e preservo o meu lugar.

Será que tudo se fundiu? que já não é possível dissociar uma da outra? quero responder que sim, que é possível, mas não tenho a certeza, e na incerteza não sei se há um só rótulo bom e mau. Em criança gostava de repetir palavras até à exaustão, apenas para me dar conta de que perdiam o significado com a repetição.

Falava com um amigo sobre esta saudade de mim – não da vida pré-filhos a que não desejo voltar – e ele respondeu que eu tinha parado de dizer o meu nome, passei a dizer e repetir apenas o dos meus filhos, então era, em certa medida, normal que me tivesse perdido de vista.

Quantas vezes por dia digo o meu nome? quantas vezes por dia tenho momentos meus? quantas vezes sou a protagonista das minhas horas, dos meus dias?

Talvez além do parto respeitado, precisemos de um pós-parto, de uma maternidade respeitados, em que somos abelhas rainhas e mestras do nosso reino e não apenas fazedoras, cuidadoras, secretárias e motoristas dos nossos filhos e suas necessidades, guardiãs de despensas recheadas e menus planeados, cumpridoras de check-lists, leitoras acérrimas das últimas teorias educativas.

Não, não temos de ficar em segundo lugar porque é o esperado. não temos de cuidar menos de nós para cuidar melhor deles. não temos de nos apagar para que eles existam. há espaço para todos. não preciso de ceder o meu.

O protagonismo do parto precisa ser trabalhado no depois, para não nos deixarmos engolir. e é certo que há muitas mães que são um bastião disso mesmo, de surfarem na crista da onda desta dualidade mãe-mulher, em vez de virar croquete de areia da maternidade. Que não sejam exceção, que não exista culpa – sua ou imposta – por cuidarem de si, por não se perderem de vista, por se verem e lembrarem (mesmo que ninguém mais veja ou lembre), por trocarem a tshirt com bolsado pelo vestido esvoaçante.

Vou começar a dizer o meu nome mais vezes. não para que na repetição perca o seu significado, mas para que o recupere, ecoe e ressoe. o nome, a alma, a mulher.

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