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Segundo filho

escrito por: Joana Rocha

03/06/2021

A minha primeira gravidez e, consequentemente o tempo de bebé pequeno, coincidiu com a gravidez das minhas melhores amigas. Uma duas semanas à minha frente, uma duas semanas atrás de mim. Essa gravidez, assim como a seguinte, foram um martírio, não físico mas emocional. Detesto estar grávida: não reconheço o meu corpo, não me sei vestir, tenho medo de falhar e não gosto de ser o centro das atenções. Quando o bebé nasce é um alívio, passa de uma responsabilidade minha para uma responsabilidade de todos. Também passa de um deslumbramento só meu para um deslumbramento colectivo.

Quando a minha filha mais velha nasceu, ficámos os três mergulhados numa bolha de amor. Fosse dia fosse noite. A casa às 6 da manhã era a melhor casa: o sol a nascer, as promessas de Primavera e aquela coisa do “troca fralda, mama, espevita o bebé, mama mais, arrota, vê se dormes, dá-lhe a mão, olha para ele”. Nesse tempo trocava mensagens com as minhas amigas a toda a hora e sobre tudo. Quatro da manhã, mamas a abarrotar de leite, a conversar com uma em Londres e outra em Lisboa. E isso estabeleceu aquilo que ainda hoje entendo como o básico para suportar um bebé pequeno: partilha (há muito mais gente como nós acordada a altas horas) e assumir que aquele é o tempo do bebé e tudo o resto é bónus.

Quando decidimos que estava na hora de ter outro (e não estava nada convencida porque teria de passar por 9 meses de sofrimento para atingir o objectivo) as minhas amigas já tinham o segundo a caminho ou nos braços. Lembro-me de uma dela me dizer “depois diz-me o que é que achas”. A minha segunda filha nasceu e estava preparada para uma segunda bolha de amor. E ela veio. Só que veio muito mais solitária.

Num segundo filho há toda a logística do primeiro para manter, limitando-nos ao essencial. O essencial, num bebé em amamentação exclusiva, era eu. A minha casa partiu-se em dois: o pai e a mais velha, eu e a mais nova. Mesmo trocando quase todas as fraldas e passando muito tempo com o bebé ao colo, a Luísa era “a filha da mãe”. Ou pelo menos era isso que sentia. O meu laço com ela formou-se rápido: ela era a minha bolinha quente que mamava desenfreadamente e era muito docinha. O do Pedro demorou um pouco mais. Senti também que como mãe lhe falhava muito: estava sempre a tentar pousá-la para estar um bocado com a mais velha ou fazer o jantar. Na verdade, senti que falhava às duas. Que não era mãe de ninguém como devia ser. A Sofia nunca se chateou comigo ou com a irmã. A Luísa foi sempre um bebé tão simpático. E ali estava eu, a sentir-me esgotada de tentar desdobrar a atenção pelas duas, a sentir que falhava toda a gente e ainda tínhamos de mudar de casa, no meio disto tudo. Um dia, no centro de saúde, disse à enfermeira que este meu bebé, aos 4 meses, era um guerreiro, que tinha aguentado uma mudança de casa, picos de trabalho e uma família toda descoordenada. Disse também que me sentia muito culpada por não ser a mãe a tempo inteiro que devia ser. Ela respondeu-me e nunca hei-de esquecer: “não se sinta, porque também lhes deu uma irmã e isso compensa tudo”. E compensa, compensa para ambas.

As coisas melhoraram quando a amamentação exclusiva acabou (e com a Luísa eu estava desejosa que acabasse, enquanto que com a Sofia parecia que queria evitar a primeira sopa). A minha bebé filha da mãe passou a ser bebé de toda a gente. Vi o Pedro e a Luísa passarem a ter muitos momentos só deles. Passou a ser muito mais bebé da sua irmã, a delirar com as suas piadas e diabruras. Eu fico a ver ou fujo e dou uma volta sozinha. Também tinha saudades de estar sozinha.

Quando nasce um primeiro filho nasce uma mãe e um pai. É muito bonito e, para nós, até nem foi muito confuso. Agora quando nasce um segundo, nasce um irmão. Ou, na verdade, nascem dois. E isso, sim, foi uma confusão, um “não tenho braços para isto tudo”, um “será que o meu coração se aguenta”. Mas isso, sim, é lindo de morrer.

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