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Amamentar é um acto político

escrito por: Maria Salgado

09/08/2021

Cá estamos a celebrar mais uma Semana Mundial do Aleitamento Materno, este ano com o mote “Proteger a Amamentação”. Nem mais. Mas é daquelas cenas que é easier said than done porque na realidade Proteger a Amamentação é um milhão de coisas que passam por pôr a mulher e o bebé em primeiro lugar na sociedade (ou vá, em pé de igualdade que já é bem longe de onde estamos neste momento).

Amamentar se for assim totalmente sem stress e em bom requer 25% da energia do corpo (para comparação o cérebro requer 20%), amamentar durante 1 ano equivale a cerca de 1800h de trabalho (para comparação um full time são 1920). Ou seja amamentar tira muito, de tudo, parafraseando a doula ShiShi Rose: estão literalmente a sugar nutrientes do nosso corpo. E isso custa, isso desgasta e não dá para fazer isso e estar sobrecarregada com a gestão e sobrevivência de uma família (sim muitas vezes trata-se mesmo de sobrevivência), é preciso dividir não só as tarefas mas também a carga mental. Eu sei que as mulheres são educadas a que seja normal recair sobre si a gestão do lar e portanto uma pessoa aguenta a sobrecarga porque toda a vida não só foi ensinada a isso como foi o que viu nas mulheres da sua vida, mas é para acabar e é já.

Portanto são duas ou três coisas que é preciso fazer e não tem nada que saber, é só tomar nota:

  • Licenças subsidiada de maternidade e paternidade com duração máxima de 2 anos (às vezes acho mesmo que precisávamos era de 3), quem quer menos faz menos;
  • Não interrupção das contribuições à segurança social durante o período da licença. Trabalho reprodutivo é trabalho e deve ser pago como tal;
  • Proibir a existência de licenças pagas a 25% do bruto. É criminoso e imoral o Estado achar isso uma hipótese viável antes de um bebé ter 1 ano de vida, é só uma violência brutal e dá a falsa sensação de escolha, não é uma escolha, basta indagar qual é o background social e ordenado de quem opta por esta licença. Remuneração deve manter-se igual à anterior (ou usar o cálculo de média já existente dos 1ºs 6 meses dos últimos 8) e ser a 100% do líquido já que as contribuições à Segurança Social devem ser mantidas — nunca é de mais lembrar que TRABALHO REPRODUTIVO É TRABALHO;
  • Baixar a idade da reforma (what mas o que é que isso tem a ver?), onde ela está agora contribuiu para a destruturação da rede de apoio, limitando a hipótese de se recorrer a avós, que normalmente estão também eles sobrecarregados com trabalho;
  • Não permitir que uma grávida ou mães e pais se cruzem com um/a que seja profissional de saúde sem formação especializada em amamentação. Se está a trabalhar numa maternidade, num centro de saúde, numa USF então tem necessariamente de ter formação específica (idealmente IBCLC) em amamentação. Zero tolerância para bitaites, espremer mamas, dizer que está gordo ou magro sem consequência e sem esmiúçar até à ultima o problema (se o houver realmente) até que a solução seja encontrada e a amamentação possa decorrer sem problemas;
  • Inserir no SNS e permitir o acesso (sem ser preciso mil atestados e relatórios médicos) a psicoterapia, fisioterapia pélvica de qualidade, nutrição, é preciso garantir que há acompanhamento adequado de quem cuida de um recém-nascido e e de caminho aproveitamos e pode ser que baixe o vergonhoso número de morte materna;
  • Garantia de parto humanizado (lol sempre surreal ter de pedir os mínimos). Não há espaço para violência obstétrica e pediátrica. Cruzem as várias queixas, detectem os profissionais reincidentes, fucking investiguem, não permitam que acompanhem gravidezes e partos. Formem até à exaustão todes es outres. Eliminem a episiotomia (mutilação genital feminina) da prática comum. Garantam que há consentimento informado. Garantam que o parto é respeitado e de quem pariu. Um parto traumático pode destruir não só a amamentação como a vida da pessoa/família. Casas de parto JÁ;
  • Ordenados com que se possa viver e segurança laboral. Uma pessoa tem que estar segura que independentemente da duração da licença quando chegar não é despedida. Protecção das condições laborais des mães e pais nos primeiros anos de vida dos filhes;

Adorava saber qual é a duração média de licença escolhida em Portugal apesar das várias hipóteses, mas pelo que vou observando diria que ronda o regresso ao trabalho e bebé na creche pelos 4 meses, pela reduzida amostra que tenho o motivo é apenas um — financeiro aka ter dinheiro para comer /pagar a casa. O que isto significa é que enquanto a OMS diz que um bebé deve ser amamentado (ou fórmula, mas agora falamos de amamentação) em exclusivo e em livre demanda até aos 6 meses por aqui temos bebés que ou passam para fórmula ou mães que compram bombas e passam a andar a tirar leite a toda a hora apenas por causa do modelo capitalista e não por escolha própria, no limite é-lhes imposto (sim, tudo é uma escolha, bla bla bla).

E pronto, a grande questão é que defender a amamentação não é simples, exige mesmo um posicionamento, é defender o Estado Social, o acesso ao SNS, melhores condições de trabalho, defender a amamentação é um acto político.

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