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Sempre sonhei ser mãe

escrito por: Joana Dantas

06/07/2021

Era das poucas, se não a única certeza que tinha na vida. Se tudo o resto a determinado momento me pareceu impossível de alcançar ou até indiferente, ser mãe nunca o foi. Essa certeza nada tem de racional, é uma certeza que vem da alma e quando assim é, só nos resta render, sem medo, simplesmente esperar, sabemos que no momento certo isso acontecerá.

Esse momento chegou para mim, com alguma surpresa, em Março de 2020. O mundo inteiro fechado em Quarentena e eu a descobrir que a minha vida ia mudar para sempre.

Não planeei. Quando algo acontece sem que nós antecipemos, isso por si só já é mágico. Retiramos todo o peso da expectativa. Eu acredito que foi o Benjamim que escolheu este momento para vir ao mundo e que tudo aconteceu exatamente como tinha de acontecer.

Li nalgum sítio que os trimestres da gravidez se equiparam às fases de vida de uma mulher. No primeiro és menina, no segundo já desabrochas-te numa bela mulher cheia de força vital e no terceiro tornas-te mãe. E isso fez-me total sentido.

Durante os primeiros 3 meses senti-me como uma bebé a precisar de colo, estava cansada e deixei de conseguir compreender e acompanhar o ritmo do mundo. Só queria aconchego, dormir muito e comer ainda mais. Ter de trabalhar a sentir-me assim foi muito difícil. Como podemos manter o mesmo ritmo acelerado, lidar com o stress do trabalho e com as infindáveis exigências da sociedade, quando estamos a passar por um processo tão intenso de gestação de um novo ser humano e de uma nova mulher?

Foi muito duro.

Foi duro porque nessa fase a barriga ainda não se vê, o bebé ainda não se sente, mas ao mesmo tempo foi quando mais senti tanto as mudanças físicas pelas quais o meu corpo estava a passar, bem como a crise de identidade e o luto da mulher que era até então. E claro que não escapei à enorme montanha russa emocional que esses processos envolvem.

Dentro de mim começaram a bater dois corações e eu comecei a sentir a dobrar.

Senti que se não me afastasse do trabalho e mergulhasse a 100% neste processo não seria possível para mim viver uma gravidez tranquila e de conexão comigo e com o meu bebé. Felizmente, a meio do segundo trimestre isso finalmente aconteceu e aí sim, comecei a viver o verdadeiro “estado de graça”.

Bem sei que nem todas temos o privilégio de andar a saltar de nenúfar em nenúfar durante a maior parte da gravidez, sentindo-nos autênticas deusas e mais felizes do que nunca. Mas não vou negar, para mim o segundo trimestre foi tudo isso e ainda mais – um verdadeiro conto de fadas!

Já não estava cansada, já não tinha de aturar o meu chefe e estava finalmente a sentir o meu rebento a dar mortais encarpados dentro de mim. A minha pele reluzia e o meu cabelo dava um bom anúncio Pantene. O parto ainda estava longe para me causar ansiedade e tinha imenso tempo livre para ir preparando o ninho ao meu ritmo e sem pressões.

Foi incrível. Desfrutei muito, mas também fiz a minha parte. Aprendi sobre gravidez, parto e pós-parto (este último QB porque para ele ninguém nos prepara). Escolhi os profissionais e maternidade que mais se alinhavam aos meus valores. Fiz um plano de parto para me salvaguardar e trabalhei os meus medos. Senti-me a cada dia mais empoderada para viver o grande momento, sabendo que nada estaria sob o meu controle, mas que tudo o que acabei de referir estaria lá como um pilar mestre impedindo a minha casa de ruir.

À medida que o tempo avançava e já em pleno terceiro trimestre, comecei a ter uma relação não tão simpática com esse mesmo Tempo. Queria pô-lo em pausa. Queria poder viver ainda mais aquela magia. Talvez estivesse com resistência a deixar de ser filha para passar a ser Mãe. Lembro-me de verbalizar “Quero muito conhecê-lo, mas não tenho pressa, estou tão feliz, por mim ele ficava dentro de mim mais uns mesinhos”. Frase à qual uma mulher sábia, mãe de 4, me responde: “A natureza sabe o que faz, quando chegares às últimas semanas de gravidez vais querer que ele nasça, nem que seja porque já te dói tudo”. E assim foi. Já a precisar de uma grua para me levantar, celebrei a chegada das 40 semanas de gestação e nesse momento senti-me pronta.

Estava pronta para ser Mãe e ele soube. No dia seguinte iniciava a maratona mais longa e mais transformadora que algum dia podia ter sonhado viver. E 36 horas depois enfim chegaste, meu Benjamim ❤️

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