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Sexo no pós-parto

escrito por: Liliana Monteiro

14/03/2022

Ia, ainda sob o efeito do paracetamol, a uma consulta de avaliação da cicatriz de cesariana. Tinham-se passado seis semanas desde o nascimento da minha filha e estava a ser seguida no centro de saúde, quase diariamente, por infeção na cicatriz.

Chegada a esta consulta oiço da enfermeira: “pronto mãe, agora tem alta… Para tudo 😉”. Não percebi. Insistiu: “Já pode iniciar relações sexuais com o seu companheiro. Coitado, já passou muito tempo!” Fiquei tão incrédula e desconfortável que senti a enfermeira a encolher-se sobre si mesma com vergonha do que acabara de dizer.

Pensei naquelas palavras vezes sem conta. Explicou-me que para quem parir via vaginal pode iniciar as relações sexuais a partir das 2 semanas, via cesariana 6 semanas. Como se fôssemos todas iguais. Como se tivéssemos todas a mesma recuperação. Sem avaliar pavimento pélvico, sem sequer nos perguntarem como nos sentimos. Porque, coitados dos nossos companheiros.

Pela primeira vez senti-me reduzida por outra mulher. Reduziu-me a mera incubadora e a uma mera prestadora de serviços.

Neste momento ainda me estava a tentar encontrar. Não sabia como ser mãe, debatia-me diariamente para me sentir feliz com o corpo que agora olhava no espelho, não sabia como incluir o papel de mulher e esposa neste caminho tão sinuoso que é o do pós-parto, as minhas mamas não eram mais um ponto erógeno, a minha privação de sono era imensa e os meus pensamentos eram todos dirigidos para cuidar daquele bebé que eu agora tinha. Mas, coitado do meu companheiro.

Decidi ouvir o coração. Não estava preparada para isto. Não estávamos preparados para isto. O bom deste episódio, infeliz, foi que me permitiu conversar com o meu companheiro sobre as nossas expectativas em relação a este tema. Porque, nós mulheres, ouvimos sempre que se não satisfizermos os nossos maridos eles vão procurar fora. E, irracionalmente, era esse o meu medo. Que eu nunca mais, com aquele corpo disforme, iria atrair o meu companheiro e que este iria procurar numa outra pessoa o que perdera comigo.

Ridículas estas crenças e pressões que colocam na mulher, mais uma vez diminuindo-as a meras prestadoras de serviços, seres incapazes de querer fazer sexo quando lhes apetece porque, imaginem só, estão com tesão. Apercebi-me neste momento que precisava de cuidar de mim e de escutar o meu corpo.

Fiz fisioterapia pélvica, exercitei-me para me começar a sentir mais eu e fui aprendendo a amar esta nova pessoa que emergira. Aprendi, entre várias e longas conversas com o meu companheiro, que intimidade não é só sexo e sexo não é só penetração.

E era só isto que eu precisava, comunicação (alguma oral, alguma gestual) e amor.

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