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Síndrome da mãe-impostora

escrito por: Ana Jorge

06/12/2021

Por ter um percurso profissional bastante exigente, num contexto muito competitivo, familiarizei-me muito cedo com o conceito de síndrome do impostor. Trabalho-o semanalmente em terapia e vou arranjando ferramentas para o contornar. Eliminá-lo parece-me impossível e por isso fui aprendendo a viver com este constante “pessimismo defensivo” que é outro nome interessante dado a esta condição.

O síndrome do impostor é, em linhas muito básicas, uma ilusão constante de inferioridade. O impostor acredita, independemente de todos os seus feitos, que é inferior e menos capacitado que os demais e, portanto, vive na certeza de que um dia será descoberto e identificado como uma fraude.

E eu impostora me confesso. Trabalho rodeada de pessoas extremamente inteligentes, que estudaram nas melhores universidades do mundo e há muitos dias em que volto para casa com a certeza de que se enganaram ao contratar-me e é agora, finalmente, que vão descobrir e mandar-me embora. Estou habituada a pensar assim e a convencer-me de que não é verdade.

Mas foi com algum horror que recentemente me apercebi de que sou uma gigante impostora em casa também: De certeza que a culpa é minha, sou eu que faço alguma coisa mal, porquê que as outras mães têm filhes que se portam tão bem e eu não consigo controlar a minha filha dentro do raio do supermercado? O Lucas acordou outra vez às 5 da manhã, mas eu achava que tinha seguido as indicações da terapeuta do sono direitinhas, porquê que não acerto uma? As minhas amigas têm todas filhes que dormem até as 8, eu realmente não fui feita para isto. Esqueci-me do leite, não acredito que não tenho leite, que incompetência, de certeza que nenhuma mãe tira agora as crianças de casa para ir à farmácia porque se esqueceu do leite, o que vão pensar as pessoas na farmácia?

Estes monólogos dentro da minha cabeça são constantes. Ao segundo filho, ainda há demasiadas situações em que não sei o que fazer e a minha expectativa é a de que as mães sabem sempre tudo. Faço férias com amigas mães e quando as férias acabam tenho mil ideias de como deveria mudar a sopa dos miúdos, ou a chucha que usam, ou as brincadeiras que faço com eles, porque vi outras mães a fazer diferente e elas parecem tão mais mães do que eu! Vou seguindo e vou escondendo, fingindo que sei o que estou a fazer, mas às vezes tenho medo que um dia os meus filhos descubram que têm uma mãe tão incapaz que nem percebeu que as tetinas dos biberões têm diferentes tamanhos e era suposto mudá-las à medida que crescem.

Sou uma fraude. E partilho isto na esperança de não ser a única, de sermos muites impostores juntes a mandar lixar o pessimismo. Bom trabalho, malta. De certeza que não eras a única mãe atrás de leite naquela noite.

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