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Só nesse momento percebi

escrito por: Anónimo

18/11/2021

Em Agosto do ano passado, a minha médica de fertilidade marcou-me uma histeroscopia para perceber se o meu útero era capaz de suportar com uma gravidez de gémeos. Estávamos na lista de espera para uma ICSI. Eu não queria gémeos, o meu marido também não, mas a médica só o aceitou quando viu que tínhamos escrito no consentimento a transferência para apenas um embrião. Ainda assim, a embriologista voltou a pressionar-nos no dia da punção. Disse que não o aconselhavam a mulheres abaixo dos 35. Eu tinha 36.

Recuando a 2020, fui fazer a histeroscopia porque “antes um exame a mais do que um a menos” e porque tinha receio que me contasse alguma coisa sobre o meu útero que eu não soubesse. Vários anos a tentar sem sucesso depois de dois abortos espontâneos. Eu tinha feito uma histerossalpingografia no ano anterior, e tinha-me doído tanto, que decidi não ler sobre o tema para não me assustar. Na noite antes do exame, fiz uma medicação vaginal que já conhecia dos dois abortos. Não é agradável e as memórias não ajudaram. 

No dia do exame tomei o antibiótico que me foi receitado, já conhecia a médica das monitorizações, disse-me que seria rápido e indolor. Não foi. A médica não conseguia introduzir o histeroscópio no meu colo do útero. As dores começaram a ser tão fortes que eu não conseguia manter as pernas quietas, comecei a chorar, a dizer desesperada que não aguentava, que me sentia a desmaiar. A enfermeira tentava segurar as minhas pernas sem sucesso enquanto gritava: esta menina precisa mesmo de anestesia. A médica ignorava-nos e entre os gritos e suor de ambas, lá conseguiu chegar ao útero, tirar as imagens necessárias para validar uma gravidez futura de gémeos e estava terminado. Fiquei dias a sangrar.

Tinha férias marcadas e não podia fazer nada porque as dores não passavam com o Brufen que a médica me disse para tomar só em sos. Estava revoltada comigo e com a minha sorte. Com o meu corpo que não colaborava. Com a infertilidade de casal. Com o ter de passar por aquilo quando nem queríamos gémeos para começar. Com todas as picadas, exames, drogas e procedimentos a que tinha de me submeter para ter um filho. 

Avançamos para 2021 e para a transferência do embrião. Eu estive muito serena durante todo o tratamento, inclusive nas partes que correram menos bem, mas tremia das pernas no dia da transferência. Só me lembrava da histeroscopia e tinha muito medo de me “portar mal” outra vez. De deitar tudo a perder naquele momento tão importante. O médico tranquilizou-me e desta vez sim, foi rápido e indolor. Foi mágico. Quando fiquei sozinha com a enfermeira, era a mesma de há um ano; ela disse-me que não se tinha esquecido de mim. Que o que me tinham feito tinha sido uma crueldade. E só nesse momento percebi que se calhar nem todas as histeroscopias tinham de ser dolorosas e sangrentas como a minha.

Agora estou grávida desse único embrião que foi transferido e tento assegurar que nunca mais vá estar numa posição semelhante. Tento reunir toda a informação de que disponho sobre a gravidez e sobre o parto. Leio sobre todos os partos que consigo, os que correram bem e principalmente os que correram mal. Quero estar o mais preparada possível. Não me vou permitir culpar por uma coisa sobre a qual eu não tenha controlo. O meu único erro foi não ter procurado informação e não ter questionado. Agora tentarei que seja diferente. 

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