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Só os três

escrito por: Liliana Monteiro

27/01/2022

Só os três.

Depois de catorze meses em pós parto (e algumas sessões de terapia à mistura) fincámos o pé, e decidimos que íamos ser uma família de 3.

A nossa ideia sempre foi de termos dois filhos, de preferência com idades aproximadas, assim um espaço de 3 anos para ser o ideal.
Engravidámos sem contar. A Íris foi uma bebé não planeada mas muito, muito desejada. Engoli todas as expectativas que nos impingem durante a gravidez. Amamentar é fácil e é o sonho de qualquer mãe. O bebé dorme a noite toda e faz as sestas na alcofa. Passadas poucas semanas já posso voltar ao exercício físico e, em poucos meses, já voltas a sentir-te TU outra vez. Chegados aos 12 meses toca a passar o bebé para o quarto dele e até parece que tens a tua antiga vida de volta.
Não preciso de dizer que não foi nada disto, não é?

O parto não foi o idealizado e deixou marcas para cuidar no pós parto. Amamentar foi fácil porque desde o primeiro dia tive ajuda de uma CAM e do meu marido. A Íris tem catorze meses (CATORZE) e não há uma noite que a durma seguida, tem entre 1 a 3 despertares, dorme na nossa cama, nunca pousou numa alcofa e eu nem sei o que é exercício físico, quanto mais como era a minha vida antes de ser mãe.

Com 15 dias de vida um diagnóstico: refluxo gastroensofágico (que tornava as nossas noites uma miséria e, juro-vos, que ambos andámos em piloto automático e ainda hoje tenho breves flashes do primeiro mês de vida da Íris, tal era a privação de sono).

Resolvido esse problema, passámos ao segundo diagnóstico: displasia desenvolvimental da anca.
Primeira tala: mais 15 dias sem dormir 2h seguidas. Não resultou.
Segunda tala: mais um mês e meio sem dormir 3h seguidas (vá lá que foi espaçando). Não resultou.
Última opção: operação e gesso. Número de meses com gesso: 3 e meio.
Depois de 3 idas ao bloco operatório, 3 meses e meio de gesso e passados 8 meses e meio, contávamos pelos dedos de uma mão o número de noites que dormimos mais de 3h seguidas.
E a preocupação?
Em todas as idas ao bloco operatório tinha de ver a minha bebé a sucumbir à anestesia geral aos berros, a chamar desesperadamente por mim, e deixá-la com perfeitos estranhos a quem lhes confiei a “coisa” mais importante da minha vida. Este trauma ficou tatuado no meu cérebro. Nunca me vou esquecer do olhar dela colado em mim, as lágrimas, o desespero,…
Tudo passou.

Depois desta montanha-russa. Depois de catorze meses e ainda me sentir em pleno pós parto. Depois de tanto tempo e só, muito recentemente, me começar, aos poucos, a sentir mulher, a sentir-me eu. Depois destes catorze meses que parecem três anos decidi que não consigo nem quero passar por outra gravidez, por outro filho.
Eu não ia resistir, a minha relação não ia resistir. Depois de fazer um “luto” de um filho que nunca tive, que só o imaginei, decidi que me amo demasiado, para o fazer. Amo demasiado o meu corpo para o fazer passar por tudo novamente. Amo demasiado o meu companheiro. Amo demasiado a nossa relação. Amo demasiado a minha estabilidade psicológica, emocional e financeira para nos submeter ao luxo de termos mais um filho.
Para quê?
Somos tão felizes assim. Os três. Só os três.

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