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Templo

escrito por: Teresa Souto

24/07/2021

Nem tudo é belo, às vezes é preciso trocar para os olhos do coração para ver o bonito. O desafio é maior do que parece, as ideias estão enraizadas a muitos metros de profundidade, as frases de conveniência estão cheias delas e os conselhos soam sempre num tom de quem vem de um lugar de profunda sabedoria e experiência… Só que não. Acho que é sempre assim para qualquer novidade evidente que saia connosco a rua mas a barriga convida mesmo a esta conversa, que é íntima mas num instante se tem com a senhora da recepção do salão de beleza:

– Está de quanto tempo? Ah já está grande, ou é uma barriga pequenina (baseado na quantidade de leguminosas que tenho ingerido).

– É menino ou menina? Ah pois já tem tudo tanto lhe faz, não é?, mas um menino equilibrava as coisas, coitado do rapaz. Coitado realmente….

– Comparado com a outra gravidez esta deve ser fácil.

Fácil. Fácil uma ova, fácil era ser uma jovem ingénua, maluca sem medos que só quis fazer ecografias aos 5 meses. Este nem 6 semanas tinha e já estávamos a espreitá-lo. Já não subo a sítios altos sem sentir tonturas há 4 anos e meio – os medos vieram e ficaram. E mais coisas vieram pra ficar também. Não sou a mesma, estou mais atenta, mais sensível, menos certa e menos aventureira. Quero amor o tempo todo e que alguém me pegue ao colo mas continuo a ser colo dos três que já nasceram. Isso não mudou e espero que nunca mude.

Não sei o que quero dizer com isto, só talvez sentir algum carinho próprio para poder realmente sentir carinho pela hérnia a saltar da diástase que me divide ao meio desde a primeira vez… Lembrar do templo que é o corpo, lembrar do que já fez, de como se transforma e transformou para conceber milagres.

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