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This too shall pass

26/10/2021

Nunca pensei que pudesse ser um problema o meu filho adormecer em 10/15 minutos.

Mas é. O problema é sobretudo meu e do pai. Que nos habituámos a esta rotina, jantar-brincadeira-dentes-fralda-cama assim já meio a dormir e pronto, 10/15min estou fora do quarto. O raio das expectativas.

Fechada a porta e começam as 2h30/3h diárias em que não estamos a trabalhar ou a cuidar. Pronto, retiremos uns 45min para arrumar a cozinha, preparar a máquina roupa para estender no dia seguinte, checkar o que será o jantar e almoço do dia seguinte (ou constatar que não há nada organizado outra vez e pensar no que inventar de forma rápida mas saudável), fazer pagamentos, meter dinheiro na conta porque está outra vez a negativo e pronto, seguimos para o sofá para ler, estudar, falar, ver o Seinfeld ou o Office (mas há mais séries?) ou Filmin (nas noites de maior disponibilidade intelectual), suspirar um pouco, lembrar que faltou fazer alguma coisa mas que vamos deixar para o dia seguinte e adormecer invariavelmente no sofá a meio de qualquer série ou filme, já mais tarde do que devíamos.

E pronto, estas 2h30/3h são o nosso balão de oxigénio, são essenciais para acordar frescos e fofos mesmo só com 7h de sono. Mas e quando de repente desaparece? É que eu não sabia que isso acontecia, estava absolutamente mentalizada que apesar de tudo ser uma fase, o meu filho ia sempre adormecer na boa.

Eis que vem a descoberta da linguagem e nos lixa o esquema. Agora estas 2h30 passaram a ser ocupadas por um longo processo de adormecimento, em que as únicas pessoas com sono são os progenitores, afasta-se sempre que possível da maminha, essa arma de adormecimento imediato e pronto, diz todas as palavras — carro, água, tem, pai, mãe, meia, cão, miau, caca, côcô, papos, pão, não, rua —, pega em todos os brinquedos e objectos e tenta que façam qualquer coisa que não estão a fazer mas que também não sabemos o que é, sobretudo o bebé, o bebé tem de fazer imensas coisas mas sempre sem sucesso. Dizemos adeus à cozinha, aos gatos, à lua, aos brinquedos, a tudo o que estiver visível e precisar de um aconchego. Lemos muito também, as personagens estão sempre com muito sono e independentemente do fado que o autor atribuiu a cada personagem naquele momento elas estão sempre muito cansadas, com muito sono e a caminho da cama. Nós é que não. Nunca. Às vezes também há corridas de carros, tudo é um carro ou um barco e percorre as paredes todas. E é horrível sobretudo porque fico passada, o perder este tempo que não é de cuidar nem de trabalhar deixa-me transtornada e irrito-me muito porque é injusto para ele, eu não estou chateada com ele mas fico mesmo sem saber lidar com toda aquela exploração fora de horas. Felizmente temos um sistema rotativo na equipa parental e quando um está a transbordar afasta-se para fazer umas respirações e ganhar folêgo e conseguir regressar mais um bocadinho porque realmente se há pessoa que não tem nada a ver com a nossa irritação é o bebé de 22 meses que está só em excitação máxima com o mundo em geral.

E pronto, normalmente adormecemos no sofá com umas festinhas na cabeça porque entretanto começaste a pôr a minha mão onde queres festas. Colo até à cama, olhar para ti e babar um pouco com o quão perfeito és, fechar a porta e um longo e profundo suspiro de um cansaço que é muito mais mental que físico.

Ontem foi uma noite particularmente terrível, para além das 3h de adormecimento houve um longo acordar pelas 5h e portanto em vez de pais hoje tinhas zombies. Também não houve sesta. Mas aqui estou eu sentadinha no sofá com manta nas pernas a escrever depois de ter fechado a porta às 21h30. A única coisa boa das noites mesmo mesmo más e que não há duas seguidas.

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