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Tomás e Duarte

escrito por: Anónimo

10/01/2022

Faz um ano que perdi os gémeos.

Um ano de sobrevivência, dor, impotência, reconstrução, todo um processo de luto e aceitação de que nem sempre tudo corre bem, como aos outros ou como planeamos.

Em plena pandemia, estive sozinha no momento em que soube que eram dois, estive sozinha no momento em que soube que poderia sofrer de um síndrome de transfusão feto-fetal, estive sozinha quando fui internada com esse síndrome, e que nenhum médico detetou a tempo… Nem que o quisesse… As consultas a serem adiadas e canceladas em plena pandemia, com gravidez gemelar e de risco. Sozinha quando fui transferida do hospital da minha residência para Coimbra, já com o Tomás morto dentro de mim. Sozinha quando, já em Coimbra, me disseram que o Tomás já não tinha batimento e sozinha quando me questionaram se alguém me tinha explicado o que tinha acontecido.. Ninguém explicou. Só ouvi “vai para Coimbra, lá saberão o que fazer!” Estava a sofrer do síndrome de transfusão feto fetal, mencionado às 13 semanas e não detetado quando estava realmente a acontecer. Sozinha quando as águas rebentaram num parto imparável e iminente há 7 dias.

Os meninos nasceram às 24 semanas em 20minutos, um morto e um vivo.

Sozinha quando me levaram para o quarto no piso das puérperas, no mesmo corredor das outras mães que tinham os bebés delas, junto a elas…onde o barulho que lá existia me dilacerou por dentro, nessa noite, na manhã seguinte. Sozinha quando fui conhecer o Duarte à UCI. No parto, não o pude ver, tocar, cheirar…por precisar de reanimação e muitos cuidados. Sozinha, quando passadas 35h após parto, me bateram à porta e eu sabia o que me vinham dizer. O Duarte também não tinha resistido…

Só abracei e chorei com o meu marido no dia da alta à porta da maternidade e nenhum ser humano devia passar por isto tudo, sem alguém a quem dar… simplesmente a mão.

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Maria Veloso
01/04/2022
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