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31 de Outubro de 2021

escrito por: Mónica Oliveira

14/10/2021

Faz este mês um ano que pari o meu primeiro filho. Que, após dois anos de tratamentos de infertilidade, uma cirurgia e lágrimas demasiadas, acordei de manhã a saber que teríamos o nosso maior sonho nos braços dali a umas horas.

Nunca esquecerei o olhar de felicidade do meu marido quando de manhã me disse “hoje trazemos o nosso bebé para casa”.

Da mesma forma que nunca esquecerei o choro descontrolado dele, meia hora depois, quando recebeu o positivo à Covid-19 e soube que não nos ia ver durante 10 dias. Que não ia assistir ao parto do único filho que iria ter. Que não iria estar ao meu lado para me ajudar, tal como tínhamos definido desde o início.

O meu filho nascia 12h depois. Num parto instrumentalizado, em nada humanizado, o que fez com que nascesse em paragem cardiorespiratória. Não me deram a mão, não me disseram que ia ficar tudo bem, não me abraçaram, ninguém me reconfortou ou parabenizou pelo bebé lindo que acabara de ter. Sabiam-me sozinha, mas ninguém teve compaixão por mim. Eu estava negativa à Covid.

Os dez dias seguintes foram um martírio. Por medo de um falso negativo, não cheirei o meu filho, não o beijei, não criei ligação alguma com o meu bebé. Aquele bebé pelo qual lutei com unhas e dentes. Dormia uma hora por noite e acordava aos gritos, a pedirem para não me matarem. Dez dias depois, fui diagnosticada com stress pós-traumático.

Um ano depois, ainda choro. Já não choro todos os dias, é verdade, de vez em quando chego a soltar uma gargalhada. Mas a mulher que eu era até àquele dia, deixei de a ser. E parte-me o coração saber que nunca vou lembrar-me do dia do nascimento do meu filho como um dia feliz.

Agradeço todos os dias o filho maravilhoso que tenho, beijo-o o tempo todo, numa tentativa constante de compensar aqueles primeiros 15 dias em que lhe falhei, aqueles que dizem que são essenciais na vida de um bebé. Espero que não sejam.

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