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Um elefante chamado infertilidade

escrito por: Cláudia Dias

08/07/2021

Decides que vais ser mãe ou decides que vais ser pai — como se tivesses grande controlo sobre isso — porque é AGORA que dá jeito. AGORA é que tens a pessoa certa do teu lado. AGORA é que tens mais estabilidade profissional e um pouco menos de mês no final do ordenado.

É AGORA. E o relógio do AGORA raramente corresponde ao relógio da fertilidade.

Aos 38 anos, chegou o nosso AGORA. Desde que nos conhecemos, aos 37, sempre fomos bastante claros um com o outro sobre a nossa vontade em sermos mãe e pai. Passados 3 meses sem contracepção, duas listas corresponderam ao nosso desejo. Chorei de felicidade e pensei: “até nem custou muito.” 6 semanas depois, não ouvimos batimentos cardíacos na ecografia e percebemos que o relógio do AGORA estava desorientado. Enquanto o meu corpo se recusava a libertar o que já tinha deixado de nutrir, entre idas e voltas do hospital, muita medicação e intervenções cirúrgicas, passaram 2 meses. 2 meses que seriam de crescimento da nossa criança.

Passados mais 2 meses tivemos “ordem” para tentar de novo.

E o nada começou a acontecer.

Todos os meses.

Sentia cada ciclo menstrual como uma oportunidade desperdiçada.

Percebi que não sabia nada acerca de fertilidade. Senti que tinham passado a vida a vender-me uma mentira. Que a gravidez podia acontecer como “um sopro”, uma corrente de ar que dava origem a um bebé, quando na verdade só tinha 25% de hipóteses disso acontecer em cada ciclo menstrual e guess what? Tinha sido quando tinha uns 25 anos…

E de repente, dei por mim a pesquisar supostas técnicas, o que podia comer, o que podia tomar, as horas, os dias mais favoráveis. Rejeitei os mitos e foquei-me na ciência. E a ciência dizia-me que já devia ter acontecido.

O amor passou a ser apenas sexo com dia e hora marcada. A pressão afetou-nos. O desejo continuava lá, mas não o queríamos “desperdiçar” num dia não fértil.

No meio de tudo tentámos continuar a viver a nossa vida. Mudámos de emprego, remodelámos o quarto e a cozinha, planeámos casar. Como se o elefante da infertilidade não ocupasse um espaço cada vez maior na nossa sala sem o dizermos. E quando se revelou, tivemos de meter um travão na vida. A pandemia ajudou-nos a mentir ao mundo quanto ao porquê de tudo adiado.

Começaram os exames. E a cada resultado uma chapada. Existem pessoas com infertilidade inexplicada, a nossa estava ali bem à vista. A primeira vez que disse a alguém que era “infértil” foi como se tivesse assumido que “não estava a cumprir o meu papel de mulher”. A sociedade, e as expetativas que metes em cima de ti própria são fodidas.

A partir dessa altura percebi que teria de ser especialista. Senti que essa era a melhor arma para meter o relógio do AGORA a trabalhar. Armei-me de conhecimento científico e passei a tratar como amigos palavrões como “Baixa Reserva Ovárica”, “Histerosalpingografia”, “Endometriose”, “Obstrução das Trompas de Falópio”, “Fragmentação do DNA espermático”, Gonadotrofinas, entre outros.

E como se já não fosse difícil só por si, fizemos tudo em pandemia. Começaram os comprimidos, as injeções, as ecografias de controlo, as análises recorrentes e conseguimos fazer a primeira Fertilização in Vitro.

E, como corredores de provas de obstáculos, fomos passando barreiras. A medicação que pode não estimular os folículos, os folículos que podem não estar maduros para colher os óvulos, a colheita que pode não conseguir óvulos, os óvulos que podem não ter maturidade suficiente, os óvulos que podem não fertilizar, os embriões que podem não se desenvolver até ao 5º dia, o blastocisto que pode não ter qualidade suficiente para ser transferido para o útero, os restantes blastocistos que podem não ter qualidade suficiente para congelar…

Até que não passámos a última barreira. Transferimos dois embriões ao 3º dia de evolução e nada. O falhanço da primeira a FIV pôs-nos na estrada no dia seguinte. Fugimos daqui.

A meio, o mundo encontrou-nos e chamou-nos de volta para uma Laparoscopia às trompas. Ok. Depois demos tempo ao útero para recuperar. Tempo que o relógio do AGORA reclamava tipo bomba de Missão Impossível.

Sentimos que não iríamos conseguir com os meus óvulos, mudámos de clínica e de médico que nos disse: “eu não atiraria já a toalha ao chão”. Começámos a abrir-nos aos poucos para algumas pessoas acerca do nosso processo. Passou a ser parte de nós. E em Janeiro nova ronda de FIV. Mais injeções, mais ecografias, mais análises. E agora pessoas a torcer por nós. E eu com menos expectativas. Mais realista.

Estávamos de novo na linha de partida e já sabíamos as barreiras todas a ultrapassar. No pico da 3ª vaga da pandemia, nova punção. E agora, 5 dias depois conseguimos ter um embrião de qualidade para transferir. E o meu mantra passou a ser: tem esperança e não expectativa. Assim pode-te acontecer um milagre e não uma desilusão.

11 dias passaram da transferência, e o relógio do AGORA acertou a hora: GRÁVIDA. Chorámos. Chorámos muito.

Fomos muito testados ao longo destes anos. Fisicamente sim, mas emocionalmente. Sabemos que há pessoas que passam por mais. Mas por mais ou menos tentativas que tenhamos feito, independentemente da duração do processo até ter esta miúda aqui dentro aos pontapés, se há algo que a infertilidade nos provou, é que somos vulneráveis mas resilientes, que o amor nos sustenta e guia, e que, apesar de querermos muito ser mãe e pai, já éramos uma família.

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